Vivemos numa época em que estar ocupado parece ser sinónimo de sucesso. Entre trabalho, responsabilidades familiares, compromissos sociais e uma constante avalanche de notificações, muitos de nós terminamos o dia com a sensação de que fizemos muito… mas, ainda assim, sentimo-nos estranhamente vazios. Foi precisamente esta reflexão que surgiu após uma conversa que tive com o psiquiatra Bruno Teixeira, que utilizou uma expressão particularmente marcante: “o vazio de uma vida ocupada demais”. A frase parece contraditória, mas descreve uma realidade cada vez mais comum: é possível ter uma agenda completamente preenchida e, ao mesmo tempo, sentir que algo essencial está em falta.
A questão não está apenas na quantidade de coisas que fazemos, mas na forma como vivemos os nossos dias.
Recentemente, durante uma sessão de terapia, fui convidado a fazer um exercício muito simples, mas profundamente revelador. A terapeuta pediu-me que batesse com os dedos na mesa ao ritmo que representava a velocidade da minha vida. Sem pensar muito, comecei a bater rapidamente. Era esse o ritmo que sentia viver diariamente: uma tarefa atrás da outra, consultas, mensagens para responder, projetos, reuniões, compromissos. Um movimento constante. Depois veio o segundo desafio: manter esse ritmo e começar, lentamente, a abrandá-lo. Foi aí que aconteceu algo curioso. À medida que o ritmo diminuía, o meu corpo parecia agradecer. Sentia-me mais confortável, mais tranquilo, mais alinhado comigo próprio. No entanto, ao mesmo tempo, surgia uma sensação desconfortável de que não podia viver assim. Como se estivesse a desperdiçar tempo ou a deixar alguma coisa importante por fazer. Percebi então um conflito que talvez muitas pessoas também sintam: o nosso sistema nervoso pede calma, mas a nossa mente exige velocidade.
Porque sentimos esta necessidade constante de produzir? Existem várias razões. Por um lado, vivemos numa sociedade que valoriza profundamente a produtividade. Trabalhar muito, estar sempre disponível e ter uma agenda cheia continuam a ser vistos como sinais de dedicação e sucesso. Mas existe também uma dimensão mais pessoal. Muitas vezes, depois de passarmos por perdas, dificuldades ou momentos de instabilidade, nasce dentro de nós a necessidade de estarmos constantemente preparados para o futuro. Procuramos aprender mais, desenvolver competências, trabalhar mais, crescer continuamente, como se isso nos pudesse proteger das incertezas da vida. Este desejo de evolução é saudável. O problema surge quando nunca desligamos esse modo de funcionamento. Quando toda a nossa identidade passa a depender daquilo que produzimos.
Ao refletir sobre este tema, comecei a distinguir três grandes tipos de atividades que ocupam os nossos dias. As primeiras são as atividades produtivas: trabalhar, estudar, responder a emails, cozinhar, tratar da casa, organizar tarefas ou cuidar da família. Todas elas criam valor e são fundamentais para a nossa vida, no entanto, têm um custo inevitável. Elas consomem energia física, emocional e mental. Depois existem as atividades distrativas: passar tempo nas redes sociais, navegar sem objetivo na internet, fazer compras online por impulso ou passar horas seguidas a ver séries. Estas atividades podem ser agradáveis e até úteis quando feitas com equilíbrio. Porém, em excesso, não nos restauram verdadeiramente. Limitam-se a distrair-nos temporariamente, funcionando muitas vezes como uma forma de anestesiar o cansaço ou evitar emoções difíceis. Nem as atividades produtivas nem as distrativas conseguem, por si só, preencher aquilo que sentimos faltar. É aqui que entra uma terceira categoria.
As atividades reparadoras: momentos que não têm como objetivo produzir resultados nem simplesmente ocupar tempo. Servem, acima de tudo, para restaurar os nossos recursos internos. Estas atividades têm duas características fundamentais. A primeira é a presença. Exigem que estejamos verdadeiramente no momento, em vez de fazermos várias coisas ao mesmo tempo. A segunda é o silêncio. Não significa necessariamente ausência de som. Uma conversa profunda com um amigo pode ser extremamente reparadora, apesar de existir diálogo. O importante é que não exista ruído mental constante nem excesso de estímulos. É essa qualidade de presença que permite ao nosso sistema nervoso recuperar. São pequenos momentos que fazem diferença. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, atividades reparadoras não exigem férias prolongadas nem retiros de meditação. Podem acontecer em apenas alguns minutos. Parar para ouvir a chuva cair, beber um café sem olhar para o telemóvel, dar um passeio sem destino nem objetivo específico, sentar-se alguns minutos em silêncio apenas a observar a respiração, tomar um banho quente prestando atenção às sensações do corpo. Até tarefas rotineiras, como lavar a loiça ou escovar os dentes, podem transformar-se em momentos reparadores quando deixamos de funcionar em piloto automático. A diferença não está na atividade em si, mas sim na forma como a vivemos, no poder da natureza e da simplicidade. Alguns dos momentos mais restauradores que recordo aconteceram durante caminhadas sem pressa. Não caminhadas para cumprir um determinado número de passos nem para fazer exercício intenso, mas simplesmente para estar. Caminhar entre árvores, observar a paisagem ou escutar os sons da natureza ajuda o cérebro a desacelerar quase sem nos apercebermos. O contacto com animais também tem este efeito. Bastam alguns minutos a fazer companhia ao nosso animal de estimação, sem distrações, para sentirmos uma mudança subtil no nosso estado emocional.
Outra prática particularmente útil é escrever livremente, sem preocupação com a forma, sem objetivos literários, apenas colocando no papel aquilo que vai surgindo. Este exercício ajuda-nos a organizar pensamentos, reconhecer emoções e perceber melhor aquilo de que realmente precisamos. O mesmo acontece na terapia. Independentemente da abordagem utilizada, reservar regularmente um espaço para olhar para dentro de nós próprios é uma forma poderosa de desenvolver autoconsciência. Quando nunca paramos para refletir, corremos o risco de viver durante anos em piloto automático, respondendo apenas às exigências externas. Mas quando criamos espaço para escutar o nosso mundo interior, tornamo-nos mais capazes de perceber aquilo que nos esgota e aquilo que verdadeiramente nos alimenta.
Nenhuma destas categorias de atividades é má. Precisamos de trabalhar, de descansar e também precisamos de momentos de lazer. O verdadeiro desafio está no equilíbrio. Se os nossos dias forem ocupados exclusivamente por tarefas produtivas e distrações, é fácil acabar por experimentar precisamente aquilo que Bruno Teixeira descreveu: o vazio de uma vida demasiado ocupada. Talvez a solução não passe por fazer menos, mas por aprender a estar mais presentes naquilo que já fazemos e por reservar, todos os dias, alguns minutos para atividades que não produzem resultados visíveis, mas que restauram aquilo que temos de mais importante: a nossa energia, a nossa atenção e a nossa capacidade de sentir.
Porque, no final, uma vida verdadeiramente preenchida não depende apenas daquilo que conseguimos fazer. Depende, acima de tudo, do espaço que encontramos para simplesmente ser.
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