Antigo chefe negociador do Ontário para o Acordo Económico e Comercial Global entre o Canadá e a União Europeia (CETA) alerta para os riscos de uma guerra comercial prolongada com os Estados Unidos, considera que o Canadá continua excessivamente dependente do mercado norte-americano e defende a preservação da integração económica entre os dois países.
A relação comercial entre o Canadá e os Estados Unidos atravessa um período de forte tensão e, independentemente do resultado das atuais negociações, dificilmente regressará a um cenário de previsibilidade no curto prazo, considera Victor Severino, fundador da Baleal Advisory Services e antigo chefe negociador do Ontário para o CETA.
Com mais de duas décadas de experiência na administração pública do Ontário, onde desempenhou vários cargos de liderança, incluindo funções de Assistant Deputy Minister em diferentes ministérios, Severino conhece de perto as negociações comerciais internacionais e os desafios enfrentados pelas empresas canadianas.
Em entrevista, Victor Severino analisa o estado da guerra comercial entre o Canadá e os Estados Unidos, a estratégia tarifária da administração norte-americana, a margem negocial de Otava e os riscos para setores fundamentais da economia do Ontário.
O antigo negociador aborda ainda o futuro do CUSMA/USMCA, a necessidade de diversificar os mercados externos e as oportunidades ainda por explorar ao abrigo do CETA.
SM: Como descreveria o atual estado das relações comerciais entre o Canadá e os Estados Unidos?
VS: Diria que a atual relação comercial entre o Canadá e os Estados Unidos está “sob tensão”. Está sob tensão neste momento, já estava antes das atuais negociações comerciais e continuará assim, independentemente do resultado destas negociações. As negociações comerciais com os Estados Unidos nunca são fáceis, mas, com a atual administração norte-americana e tendo em conta a incerteza quanto ao tempo que um eventual acordo poderá efetivamente durar, “sob tensão” é a expressão mais adequada para descrever a relação neste momento.
SM: Continuamos perante uma disputa tarifária ou esta situação evoluiu para um confronto económico e político mais abrangente?
VS: Embora sejam tecnicamente um instrumento económico, a atual administração norte-americana encara claramente as tarifas como instrumentos políticos, utilizando-as para punir os parceiros comerciais e pressioná-los a aceitar a sua vontade. Quando analisamos os últimos dois anos da atual administração dos Estados Unidos, é impressionante observar a obsessão que desenvolveu pela imposição de tarifas, mesmo quando os próprios intervenientes económicos norte-americanos alertam que muitas dessas tarifas acabam por impor custos adicionais às empresas e aos consumidores dos Estados Unidos.
SM: Tendo em conta a sua experiência como negociador comercial, o que considera que a administração Trump pretende, em última análise, alcançar com a sua estratégia comercial em relação ao Canadá?
VS: Com pessoas como Peter Navarro a aconselhar a administração norte-americana, é difícil não concluir que o objetivo predominante é punir o Canadá.
Uma interpretação mais benevolente seria considerar que a administração dos Estados Unidos está simplesmente a tentar maximizar os seus próprios benefícios económicos, obtendo concessões cada vez maiores por parte do Canadá.
SM: O resultado, contudo, poderá ser o mesmo: um recuo na integração económica que trouxe benefícios significativos às duas economias.
Que margem negocial tem realmente o Canadá perante uma economia aproximadamente dez vezes maior?
VS: Este é verdadeiramente o cerne do problema e a principal questão que todos devemos ter presente antes de criticarmos de forma demasiado severa o resultado das atuais negociações. As negociações entre o Canadá e os Estados Unidos nunca são simétricas. Embora possamos ter vantagens específicas em determinadas áreas, o equilíbrio do poder negocial favorece os norte-americanos. Pelo que consigo observar – tendo presente que apenas algumas pessoas conhecem aquilo que realmente acontece dentro da sala de negociações -, o Canadá parece estar a utilizar criteriosamente as vantagens de que dispõe. Será suficiente para reduzir esta mais recente ameaça tarifária? Ainda é demasiado cedo para saber.

SM: Até que ponto devem os canadianos estar preocupados com o futuro do CUSMA/USMCA e com a próxima revisão do acordo? Esta guerra comercial poderá alterar fundamentalmente o comércio livre na América do Norte?
VS: Os canadianos têm razões legítimas para estarem preocupados com o resultado das futuras negociações do CUSMA/USMCA. Um possível desmantelamento da integração económica entre o Canadá e os Estados Unidos aceleraria a transferência de empresas canadianas para sul da fronteira. Já estamos a assistir a esse fenómeno e este poderá intensificar-se caso os Estados Unidos adotem um regime tarifário que torne proibitivo produzir no Canadá. Isto não significa que os Estados Unidos beneficiem automaticamente de um regime tarifário tão punitivo contra o Canadá.
Uma das características mais surpreendentes da atual administração norte-americana é a sua disponibilidade para sacrificar o próprio bem-estar económico, mesmo quando é evidente que esse regime tarifário prejudicará algumas das suas próprias comunidades e indústrias.
É difícil negociar com alguém que procura comprometer a sua própria prosperidade económica.
SM: Quais devem ser as prioridades e as linhas vermelhas do Canadá nas negociações com Washington?
VS: Não considero que essa seja a pergunta certa. Como Mike Tyson disse numa frase célebre, “todos têm um plano até serem atingidos pela primeira vez”.
O essencial é manter agilidade e flexibilidade à medida que as negociações avançam. Historicamente, as linhas vermelhas do Canadá têm incluído o sistema de gestão da oferta nos setores dos ovos, aves e produtos lácteos, mas mesmo nestas áreas os negociadores canadianos têm demonstrado flexibilidade. A principal prioridade deve ser preservar, tanto quanto possível, a integração económica da qual tanto os Estados Unidos como o Canadá têm beneficiado. Isso significa alcançar o regime tarifário mais baixo possível ou, idealmente, não ter tarifas.
SM: Existe o risco de as tarifas retaliatórias canadianas, apesar da pressão política para as aplicar, acabarem por prejudicar os consumidores e as empresas do Canadá tanto quanto pressionam os Estados Unidos?
VS: Não considero que as tarifas retaliatórias sejam alguma vez politicamente necessárias, embora possam encontrar apoio no contexto político do momento.
Não podemos, por um lado, condenar as tarifas norte-americanas por serem prejudiciais aos interesses económicos dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, considerar que as tarifas canadianas não prejudicam os interesses económicos do Canadá.
É uma questão de tática e de determinar quando deve ser aplicada pressão para conseguir que a outra parte altere a sua posição sobre determinada questão.
SM: A economia do Ontário está profundamente integrada com a dos Estados Unidos, particularmente nos setores automóvel, do aço, alumínio, energia e indústria avançada. Quais são atualmente os setores mais vulneráveis?
VS: Todos esses setores são vulneráveis. Existem tantas empresas nestas áreas com instalações dos dois lados da fronteira que a imposição de um regime tarifário punitivo poderia ser potencialmente catastrófica para o Canadá.
Se as transferências internas das empresas através da fronteira passarem a estar sujeitas a tarifas, existe uma forte possibilidade de algumas dessas empresas abandonarem o Canadá e transferirem as suas operações exclusivamente para os Estados Unidos, de forma a ficarem mais próximas dos seus principais clientes.

SM: Para as pequenas e médias empresas canadianas, o que significa, na prática, um conflito comercial prolongado: custos mais elevados, adiamento de investimentos, perda de empregos ou eventual transferência da produção?
VS: Para a comunidade empresarial canadiana, de uma forma geral, o nível e a duração desta incerteza são corrosivos para a economia. Os investimentos, em particular, são adiados ou tornam-se mais caros. Quando se perdem empregos, é mais difícil recuperá-los. A inovação e o crescimento da produtividade abrandam. Tudo isto resulta, no longo prazo, numa redução do nível de vida de todos nós. Dito isto, a economia canadiana demonstrou um elevado grau de resiliência perante esta incerteza económica. A situação acabou por evoluir melhor do que indicavam as previsões mais pessimistas.
SM: Sucessivos governos canadianos têm defendido a diversificação do comércio para reduzir a dependência dos Estados Unidos. O Canadá fez o suficiente ou esta crise demonstrou até que ponto continuamos dependentes do mercado norte-americano?
VS: Na minha opinião, o Canadá não fez o suficiente, mas diversificar é muito difícil. A geografia é importante e o Canadá está condicionado pela geografia da América do Norte. Os Estados Unidos constituem o maior e mais dinâmico mercado do mundo e temos de encontrar uma forma de aproveitar os seus benefícios para os nossos cidadãos. É difícil dizer a uma empresa do sudoeste do Ontário que precisa de diversificar para outros mercados quando o mercado norte-americano está mesmo do outro lado da fronteira. O mesmo acontece com uma empresa que possui instalações tanto no Canadá como nos Estados Unidos: essas operações estão integradas para servir um mercado norte-americano, e não um mercado localizado noutra região do mundo.
SM: Foi o principal negociador do Ontário para o CETA. O Canadá aproveitou plenamente o acordo comercial com a União Europeia ou existe ainda um potencial significativo por explorar?
VS: O Canadá pode sempre fazer mais para tirar partido dos acordos comerciais que já possui, e o CETA não é diferente. Existem oportunidades significativas na agricultura e nos minerais críticos, mas também na indústria avançada e nas tecnologias limpas. Para mim, a área que poderá surpreender é a da engenharia e dos serviços profissionais, onde a União Europeia abriu oportunidades significativas no domínio da contratação pública.
Temos simplesmente de fazer melhor na forma como aproveitamos estas oportunidades.
SM: Este conflito comercial poderá acabar por acelerar a relação económica do Canadá com a Europa, incluindo Portugal? Onde identifica as maiores oportunidades?
VS: Ficaria satisfeito se estivesse enganado, mas não creio que isso aconteça.
A força de atração da economia norte-americana é demasiado grande, e as relações comerciais e culturais históricas são demasiado importantes para o Canadá. No fundo, uma economia pequena e aberta como a canadiana beneficia de ter muitos parceiros comerciais, mas não podemos esquecer que estamos junto do mercado mais importante do mundo e temos de encontrar uma forma de tirar partido dessa realidade.
Sérgio Mourato
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