O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou esta quarta-feira o tom perante a aproximação entre o Canadá e a União Europeia, afirmando que uma eventual entrada canadiana como primeiro “membro associado” do bloco poderá ser encarada por Washington como um “ato hostil”.
Em declarações aos jornalistas na Carolina do Norte, Trump acrescentou que, caso considere que a iniciativa tem “más intenções”, poderá responder com tarifas elevadas sobre produtos europeus.
As declarações surgem num momento de aprofundamento das relações entre Ottawa e Bruxelas.
No mesmo dia, Trump assinou um memorando que determina às agências federais responsáveis pelas compras públicas norte-americanas que retirem produtos de origem canadiana dos processos abrangidos pela medida.
A Casa Branca justificou a decisão como uma resposta ao que descreveu como tratamento “injustificado e discriminatório” dos produtos dos Estados Unidos pelo Canadá.
Um responsável da administração norte-americana, citado sob anonimato no relato fornecido, afirmou, porém, que a decisão sobre as compras públicas não está relacionada com a aproximação entre o Canadá e a UE.
A tensão aumentou enquanto o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, reforçava os contactos políticos na Europa.
Carney esteve na primeira fila durante o discurso sobre o Estado da União da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que defendeu uma reformulação da parceria com o Canadá.
Von der Leyen afirmou que as duas partes devem “reimaginar urgentemente” a relação e procurar uma cooperação que vá além do atual acordo de comércio livre.
Carney deverá discursar perante o Parlamento Europeu na quinta-feira, enquanto continuam as conversações sobre a forma que poderá assumir uma parceria reforçada.
A nova frente comercial aberta por Washington está ligada também à política federal “Buy Canadian”, implementada por Otava em dezembro de 2025.
Segundo a ordem presidencial descrita no texto fornecido, a administração Trump considera que essas regras criaram novas barreiras às empresas norte-americanas interessadas no mercado canadiano de contratação pública.
A política canadiana dá prioridade a empresas nacionais em determinadas compras federais e prevê a utilização de aço, alumínio e madeira canadianos em grandes projetos federais de construção e defesa, além de estabelecer condições de reciprocidade para alguns fornecedores estrangeiros.
O gabinete do ministro canadiano responsável pelo Comércio Canadá-EUA, Dominic LeBlanc, confirmou ter tomado conhecimento das novas restrições.
O porta-voz Gabriel Brunet afirmou que Ottawa analisará as medidas tendo em conta os interesses das empresas e dos trabalhadores canadianos.
Os Estados Unidos também mantêm políticas de preferência por fornecedores nacionais através das regras “Buy America”, algumas das quais foram introduzidas ou reforçadas durante administrações anteriores e posteriormente mantidas ou ampliadas.
A disputa comercial entre os dois países intensificou-se depois do regresso de Trump à Casa Branca.
Segundo o relato fornecido, Washington mantém diferentes medidas comerciais que atingem produtos canadianos, incluindo tarifas setoriais sobre aço, alumínio, automóveis e outros bens, enquanto determinados produtos conformes com o Acordo Canadá–Estados Unidos–México continuam sujeitos a tratamento específico.
Otava, por sua vez, adotou tarifas retaliatórias sobre determinados produtos norte-americanos, ampliando uma disputa que afeta cadeias de abastecimento profundamente integradas.
A possibilidade de uma relação institucional inédita entre o Canadá e a União Europeia acrescenta agora uma dimensão geopolítica às divergências comerciais.
Autoridades canadianas e europeias ainda discutem como definir essa parceria reforçada, pelo que o eventual estatuto de “membro associado” não está apresentado no material fornecido como uma adesão concluída.
Para Otava, a aproximação à Europa integra uma estratégia mais ampla de diversificação das relações económicas num período de maior incerteza no comércio com os Estados Unidos.
Empresas dependentes do comércio transfronteiriço alertam entretanto para as consequências da escalada.
Sérgio Mourato
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