O luso-canadiano Paulo da Silva, natural de Lisboa e emigrado para o Canadá com apenas um ano de idade, afirmou que a nomeação para chefe da Polícia Regional de York representa o maior feito da sua carreira e uma homenagem ao percurso e aos valores transmitidos pelos pais portugueses.
O novo chefe da corporação, de 54 anos, assumiu funções a 27 de junho, sucedendo a Jim MacSween, depois de mais de três décadas de carreira policial, das quais mais de cinco anos como chefe-adjunto.
Numa entrevista à Senso Magazine, Paulo da Silva disse que nunca imaginou chegar ao cargo máximo da organização quando ingressou na polícia, sublinhando que existe apenas “um chefe” em cada corporação.
“Como imigrante que veio para este país, nascido em Lisboa, em Alfama, e que chegou ao Canadá com apenas um ano de idade, este é um feito de uma vida inteira”, afirmou.
O responsável acrescentou que a nomeação representa também uma forma de honrar o legado da comunidade portuguesa no Canadá e os ensinamentos recebidos da família.
“É representar quem eu sou, quem os meus pais me ensinaram a ser e também representar a herança e a cultura portuguesa neste país”, disse.
Paulo da Silva explicou que a vocação para a carreira policial nasceu dentro de casa, recordando que o pai foi agente da Polícia de Segurança Pública (PSP), em Lisboa, durante oito anos, antes de emigrar para o Canadá.
Segundo contou, antes de ingressar como agente efetivo iniciou funções como voluntário no corpo auxiliar da Polícia de Toronto, passando depois pela Polícia Provincial do Ontário (OPP) durante dois anos.
Em 1997 entrou para a Polícia Regional de York, onde desenvolveu praticamente toda a carreira até ser agora escolhido para liderar a organização.
O novo chefe revelou que uma história vivida pelo pai marcou profundamente a sua visão sobre liderança e integridade.
Segundo explicou, quando era polícia em Lisboa, o pai recusou retirar uma multa aplicada ao proprietário de um estabelecimento que servia álcool fora do horário permitido, apesar de ter sido pressionado por um superior hierárquico.
“O meu pai disse que o papel de um polícia é fazer cumprir a lei, independentemente de quem a pessoa conhece”, recordou.
Para Paulo da Silva, esse episódio tornou-se uma referência permanente sobre a responsabilidade associada ao exercício da função policial.
“A integridade é um dos valores mais importantes que trago para esta liderança”, afirmou.
Questionado sobre as prioridades para os próximos anos, o responsável identificou quatro áreas fundamentais.
A primeira passa por reduzir todas as categorias de criminalidade e garantir que os residentes não apenas vivem numa comunidade segura, mas que também se sentem seguros.
“Não basta dizermos que York é uma região segura. As pessoas têm de sentir essa segurança no dia a dia”, afirmou.

Segundo explicou, esse objetivo exige uma combinação entre investigação criminal, prevenção e investimento em programas de apoio social, considerando que muitos problemas chegam à polícia depois de outros sistemas terem falhado.
A segunda prioridade será investir nos agentes e funcionários civis, proporcionando melhores ferramentas, recursos e apoio ao longo de toda a carreira.
“A atividade policial é extremamente exigente e temos de garantir que os nossos profissionais recebem o apoio necessário desde o primeiro dia até à reforma”, afirmou.
A terceira prioridade consiste em reforçar a confiança entre a polícia e a comunidade.
Paulo da Silva considerou que a legitimidade das forças policiais depende da confiança pública e defendeu que essa relação deve ser construída diariamente e não apenas durante situações de crise.
“As relações constroem-se muito antes de uma crise acontecer”, afirmou.
Segundo explicou, cada contacto entre um agente e um cidadão representa uma oportunidade para fortalecer essa confiança.
A quarta prioridade será acelerar a modernização tecnológica da corporação para responder à evolução das formas de criminalidade.
O responsável destacou, como exemplo, a utilização do sistema automático de reconhecimento de matrículas (Automatic Licence Plate Recognition — ALPR), que permite identificar veículos roubados assim que entram na região.
“O objetivo é interromper o crime antes que aconteça, sempre respeitando integralmente a legislação sobre proteção da privacidade”, explicou.
Sobre o crescimento populacional e a crescente diversidade da Região de York, Paulo da Silva afirmou que a polícia deve refletir a comunidade que serve em todos os níveis da organização.
“O recrutamento, a promoção e o envolvimento comunitário devem garantir que representamos verdadeiramente a diversidade da nossa região”, afirmou.
Relativamente aos principais desafios de segurança pública, destacou o combate ao crime organizado, ao crime violento, ao tráfico de seres humanos e às fraudes dirigidas aos idosos.
Para enfrentar esses fenómenos, sublinhou a importância da cooperação permanente com outras forças policiais, incluindo a Polícia de Toronto, a Polícia Provincial do Ontário (OPP), a Polícia Regional de Peel, a Polícia Regional de Durham e a Polícia Montada do Canadá (RCMP).
“Os criminosos não conhecem fronteiras municipais e, por isso, a resposta policial também tem de ser integrada”, afirmou.
Na área da segurança rodoviária, Paulo da Silva apontou o excesso de velocidade, a condução sob efeito de álcool ou drogas e a condução distraída como as principais causas de acidentes graves.
O responsável apelou aos condutores para cumprirem as regras da estrada, lembrando que conduzir é um privilégio e não um direito adquirido.
Questionado sobre o legado que pretende deixar, Paulo da Silva afirmou que espera que, no final do mandato, os residentes sintam uma redução da criminalidade e uma comunidade mais segura.
“A segurança da comunidade é uma responsabilidade partilhada. A polícia tem um papel, mas cada cidadão também pode contribuir para reduzir o risco de crime e tornar a nossa região mais segura”, concluiu.
Com cerca de 2.900 agentes e funcionários civis, a Polícia Regional de York presta serviço a uma população superior a 1,25 milhões de habitantes, abrangendo municípios como Markham, Vaughan, Richmond Hill, Aurora, Newmarket, King, East Gwillimbury, Georgina e Whitchurch-Stouffville.
Sérgio Mourato
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