Num momento de muitas transições dentro das instituições luso-canadianas, temos sido convidados para repensar no que será o futuro dos portugueses no Canadá enquanto comunidade. Uma das associações que está neste momento a viver uma transformação é a Federação de Profissionais e Empresários Luso-Canadianos (FPCBP), com a presidência recentemente assumida por Paulo Pereira.
Já com uma longa história de envolvimento comunitário, Paulo quer trazer uma visão centrada na sustentabilidade, no ensino e no envolvimento das novas gerações. Ligado especificamente à Federação há mais de uma década, primeiro como bolseiro, depois como diretor e tesoureiro, Paulo Pereira conhece bem de perto os desafios e as limitações que a organização tem enfrentado ao longo do tempo. Agora, numa altura em que a comunidade portuguesa no Canadá continua a evoluir, acredita que chegou o momento de repensar prioridades e criar estruturas capazes de garantir impacto para um futuro próspero.
Neste mês em que celebramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Paulo Pereira fala à Senso Magazine sobre liderança, identidade, juventude, desafios económicos e a necessidade de adaptar as instituições portuguesas aos tempos modernos sem perder as raízes que continuam a unir-nos.

Senso Magazine: Ao longo dos anos desempenhou vários cargos de chefia na comunidade portuguesa. O que o motivou a assumir a presidência da FPCBP?
Paulo Pereira: Em plena verdade, não estava à espera nem a contar ser presidente da FPCBP. Mas, a 30 de abril havia uma necessidade de alguém ocupar o cargo de urgência e finalizar em cima do joelho os preparativos da Gala de Excelência e Bolsas de Estudo. Infelizmente, a nível institucional só eu avancei para ocupar o cargo. Mas felizmente, realizámos uma boa gala com imensa ajuda de membros de ambas as direções e pessoas de fora que foram além dos seus contratos.
A minha ligação à FPCBP já é antiga. Fui premiado com bolsas de estudo três vezes em três categorias diferentes pela Federação, incluindo uma oportunidade de fazer um mestrado na Nova School of Business and Economics, em Lisboa, devido a uma parceria entre ambas as instituições que, infelizmente, já não existe. Também já tinha servido como diretor/tesoureiro nos mandatos de Sérgio Ruivo, Michelle Jorge, Ana Maria Faria e Bela Cumberbatch. E sei o que tem sido a federação nos últimos 14 anos.
Quando existe uma necessidade, também existe a oportunidade de refletir sobre algo que podemos fazer diferente. Essa oportunidade de poder fazer coisas de forma diferente foi o motivo que me levou a avançar.
SM: Que mudanças ou objetivos espera introduzir para modernizar a Federação?
PP: A Federação tem um historial vasto e um nome bastante abrangente. Há uma lacuna de expectativas entre o que nós temos feito bem nos últimos 45 anos e o que as pessoas acham que nós devíamos fazer ou temos feito. Nos últimos 45 anos a Federação tem-se sempre focado em promover a educação de jovens luso-canadianos. Nos meus 14 anos de ligação à Federação, dois eventos aconteceram sempre (fora nos anos da pandemia): a Gala e a celebração do Dia da Mulher. No restante, tem havido projetos que correram bem mas deram em águas de bacalhau porque a Federação necessita de mais tempo do que as próprias direções voluntárias tinham para dar.
Eu comendo o trabalho de todos, aqueles que verdadeiramente perderam horas e horas para aguentar o barco e fazer as coisas acontecer. A Federação, com o esforço dessas pessoas, pôde mudar e apoiar trajetos de vida.
Dito isto, a Federação tem de ser mais focada no que nós fazemos como organização. Temos recursos limitados e um modelo que é difícil de continuar a executar. Então, o objetivo da direção atual é a criação e capitalização de uma fundação, focar no ensino da comunidade lusófona, no ensino do português e em parcerias estratégicas entre as empresas e os jovens da comunidade.
A Federação não pode continuar a bater à porta das mesmas empresas ano após ano e esperar que elas abram a porta sempre. Temos de ser sustentáveis. Este ano demos $36,000 em bolsas de estudos a 16 estudantes, quando tivemos 140 candidaturas. O ensino superior está mais caro. A nossa comunidade tem meios para fazer melhor, mas temos de estar estruturados para isso acontecer. Uma fundação capitalizada com 1 milhão de dólares facilmente ganhará mais do que $36,000 por ano para distribuir. E a Federação tem $200,000 em reserva que, no meu tempo de afiliação, não tem servido a comunidade. Agora é o momento de fazer as coisas de forma diferente, para garantir a sustentabilidade para o futuro.
A nossa comunidade tem de balancear evoluir com o tempo e preservar o passado
SM: A Federação foi fundada em 1981. Sente que as gerações mais jovens ainda hoje se sentem ligadas às organizações comunitárias portuguesas?
PP: As gerações mais novas vibram a ligação a Portugal. Portugal é um país que está na moda neste momento e que tem muito para oferecer. Mas a nossa comunidade hoje é uma comunidade diferente. Não existe o influxo de imigração nova em massa como nas últimas décadas do século XX.
A imigração de hoje já é de um português cosmopolita, que chega mas nem sempre necessita de procurar as instituições tradicionais que a nossa comunidade oferece. Então, a maior parte do crescimento da nossa comunidade é dos luso-canadianos de primeira, segunda, terceira geração e além, já nascidos em terras do Canadá.
Dando um exemplo pessoal, na minha turma da escola primária éramos cinco luso-canadianos aqui no bairro com alguma influência do português: Três andámos em escolas de português, dois jogaram futebol em clubes portugueses, um andou em programas culturais portugueses e dois têm relacionamentos com outro/a luso-descendente.
A taxa de redenção em ambas das atividades é abaixo de 100%, o que quer dizer que aos poucos vamos perdendo parte da nossa portugalidade. As razões para isso são inúmeras e dão para fazer uma tese de doutoramento.
A nossa comunidade tem de equilibrar evoluir com o tempo e preservar o passado. Mas existindo oportunidades para os jovens se unirem sob uma bandeira, eles aparecem. Exemplos que gosto de destacar são a Luso-Can Tuna e a Portuguese Ball Hockey Association.
Ágora é o momento de fazer as coisas de forma diferente, para garantir uma sustentabilidade para o futuro
SM: Quais são os principais desafios que os profissionais e as empresas luso-canadianas enfrentam atualmente?
PP: A nossa comunidade tem uma faca que corta dos dois lados: a construção civil. Quando a economia está boa e em alta, o efeito sente-se na nossa comunidade, mas o inverso também se sente.
Além de termos uma comunidade bastante concentrada na construção civil, há portugueses em todos os ramos de negócio. O problema é, muitas vezes, transmitir essa informação para as pessoas que precisam dessa informação. Antigamente havia a Rua Augusta, a Dundas e a College como núcleos de comércio português. Hoje estamos muito mais espalhados, o que torna mais difícil apoiar os nossos negócios e diminui a importância do uso da língua portuguesa naquelas zonas. Há dez anos, arranjei emprego no Dufferin Mall porque sabia falar português. Hoje talvez ainda arranjasse, mas daqui a dez ou quinze anos não sei.
Outro problema que temos de considerar é que estamos muito localizados em Toronto/GTA. Há portugueses a ocupar posições de importância na nossa sociedade fora de Toronto que talvez não tenham o destaque e reconhecimento que merecem.


SM: Qual a importância da mentoria e do networking em comunidades como a nossa?
PP: Somos uma comunidade que constrói cidades, e há muito para aprender entre nós. Hoje em dia uma casa é feita por dezenas e dezenas de pessoas, de arquitetos a pintores. Cada um com informações e talento específico para realizar a obra. Essa informação só é transmitida quando interagimos e tentamos não só aprender com os outros, mas ensinar os outros também. Seja em obras, planeamento financeiro, seguros e outras áreas, temos profissionais na nossa sociedade que podem ajudar e querem ajudar. E como diz o ditado antigo, é preciso semear para colher.
SM: O que significa para si o Dia de Portugal e o Mês do Património de Portugal?
PP: O dia de Portugal é muito importante para mim. Sou com muito orgulho um luso-canadiano ligado à cultura dos meus pais. Tenho orgulho de fazer parte de um povo sem medo de explorar e construir, de enfrentar adversidades e transformar. Feliz dia de Portugal para todos.
»Os conteúdos publicados no website da Senso Magazine são traduzidos automaticamente, recorrendo aos serviços de tradução da Google.




Publique você mesmo!