Filha de emigrantes de São Miguel, nos Açores, Coralia Bulhões nasceu em Gatineau, no Quebeque, e cresceu a ajudar os pais na Mercearia Victória e na exploração agrícola da família. Hoje é Diretora Financeira (CFO) e Diretora Responsável dos Serviços Financeiros do Banco do Canadá, liderando uma equipa de cerca de 100 pessoas numa instituição com aproximadamente 2.200 funcionários.
Em entrevista à Senso Magazine, a lusodescendente recorda os ensinamentos dos pais, fala sobre o percurso que a levou ao banco central canadiano e deixa uma mensagem às novas gerações.
Senso Magazine: É uma das mais altas responsáveis do Banco do Canadá e descendente de portugueses. De que forma as suas raízes portuguesas influenciaram o seu percurso profissional e os valores que leva para a liderança?
Coralia Bulhões: Os meus pais emigraram há muitos anos. A minha mãe veio para o Canadá há 57 anos e o meu pai há mais de 60. Como muitos imigrantes, vieram com muito pouco para terem uma vida melhor. Sempre trabalharam muito e mostraram aos filhos que, para ter alguma coisa, é preciso trabalhar e fazer o esforço necessário. Esses valores sempre estiveram comigo. Tenho um irmão e quatro irmãs e crescemos numa família muito unida. Aprendemos a comunicar, a trabalhar juntos e a ajudarmo-nos uns aos outros. Quando penso na minha infância e na minha família, percebo que esses valores continuam presentes no meu trabalho. Os meus empregados são como se fossem a minha família e procuro cuidar deles dessa forma.
Os meus pais ensinaram-me que, para ter alguma coisa na vida, é preciso trabalhar, fazer o esforço necessário e nunca desistir. Esses valores continuam a orientar todas as decisões que tomo.
Senso Magazine: Como era a sua infância e que papel teve a Mercearia Victória na sua formação?
Coralia Bulhões: Os meus pais tinham uma mercearia portuguesa, a Mercearia Vitória, e eu trabalhava lá para ajudar a família. Era operadora de caixa, servia os clientes e aprendia com os meus pais e com as minhas irmãs. O meu pai também tinha uma quinta com muitas vacas e nós ajudávamos a fazer a erva. Foi sempre uma aprendizagem sobre trabalho em equipa e contributo para a vida familiar. Esses valores continuam comigo até hoje. Trabalhar para ajudar uma organização a vencer, seja o Banco do Canadá ou qualquer outra companhia, é algo que aprendi muito cedo.
Senso Magazine: A comunidade luso-canadiana tem produzido cada vez mais líderes em áreas como a política, os negócios e as finanças. Como vê essa evolução?
Coralia Bulhões: Vejo muitos luso-canadianos empregados no governo e em áreas ligadas às finanças. Tenho orgulho quando vejo outra pessoa descendente de portugueses a ter uma carreira positiva e a avançar na vida. Acho que é nosso dever ajudar essas pessoas quando possível. Pode ser abrir uma porta, apresentar alguém, dar um conselho ou criar uma oportunidade. Faz parte da cultura portuguesa ajudarmo-nos uns aos outros. Aos jovens que sonham com cargos de responsabilidade no governo ou noutras organizações, digo para continuarem a trabalhar e a fazer o trabalho bem feito. Aos poucos, vão avançando.
Senso Magazine: Que papel teve a família e a herança portuguesa na sua formação pessoal e profissional?
Coralia Bulhões: Aprendi a esforçar-me e a fazer o trabalho bem feito. Quando trabalhamos com muitas pessoas, é fácil encontrar quem se concentre apenas nos problemas. Mas quando encontramos alguém que diz que vai encontrar uma solução e ajudar a resolver a situação, essa pessoa tem valor. Os meus pais ensinaram-me isso e eu procuro transmitir o mesmo às minhas equipas. Digo sempre que qualquer tarefa deve ser feita com dedicação. E se não souberem fazer alguma coisa, devem pedir ajuda. O importante é colocar todo o esforço possível para fazer um bom trabalho.
Não abandonem os vossos sonhos. Os dias passam, os anos passam e, com paciência e persistência, vamos avançando.
Senso Magazine: Que conselhos deixaria aos jovens luso-canadianos que ambicionam seguir carreiras na gestão, nas finanças ou no serviço público?
Coralia Bulhões: O meu conselho é estudar. Comecem por aprender e observem os outros. Deem o melhor de vocês em tudo aquilo que fazem. Eu comecei na mercearia dos meus pais. Depois quis ir para a universidade e houve dias difíceis. Houve dias em que pensei desistir. Mas a minha mãe dizia-me que, quando tivesse o diploma, teria ainda mais oportunidades. Não abandonem. Continuem a ter vontade de subir na vida. Os dias passam, os anos passam e, aos poucos, vamos avançando. É preciso paciência e persistência.
Senso Magazine: Portugal e Canadá mantêm relações económicas cada vez mais próximas. Considera que existe potencial para um maior intercâmbio entre os dois países?
Coralia Bulhões: Sim. Seja com Portugal ou com outros países, penso que é importante abrir portas e criar oportunidades. Portugal tem muito para oferecer e o Canadá também. Trabalhar juntos pode trazer benefícios para ambos os países e gostava de ver essa cooperação crescer nos próximos anos.
Senso Magazine: Qual considera ter sido o momento mais marcante da sua carreira?
Coralia Bulhões: Quando trabalhava na Federação Canadiana de Municípios comecei na área financeira, mas fui assumindo responsabilidades noutras áreas. Aceitei esses desafios porque queria ajudar a organização. Mais tarde fui contactada por um recrutador sobre uma oportunidade no Banco do Canadá. Não tinha a certeza se queria sequer fazer a entrevista porque estava muito ligada à organização onde trabalhava há quase 20 anos. Quando recebi a proposta, perguntei porque me tinham escolhido, uma vez que não vinha da área bancária nem do governo. Disseram-me que tinha sido pela minha autenticidade, pelo respeito que demonstrava e pela vontade de ajudar. Essas palavras tocaram-me porque refletem os valores com que fui educada.
Senso Magazine: Mantém ligação à comunidade portuguesa?
Coralia Bulhões: Sim, embora menos do que antigamente porque a minha mãe vive comigo e está prestes a completar 90 anos. Já participei nas festas do Espírito Santo e os meus pais estiveram sempre muito envolvidos na comunidade. A minha mãe fazia massa sovada para as festas e o meu pai foi mordomo durante muitos anos. Ainda gosto de participar e de contribuir quando posso. Tenho orgulho nos meus pais, orgulho nas minhas raízes açorianas e orgulho na cultura portuguesa.
Sérgio Mourato
»Os conteúdos publicados no website da Senso Magazine são traduzidos automaticamente, recorrendo aos serviços de tradução da Google.




Publique você mesmo!