O Governo canadiano anunciou esta sexta-feira, em Ohsweken, a sudoeste de Hamilton, um investimento de 192 mil dólares na Indigenous Performing Arts Alliance (IPAA), destinado a ampliar oportunidades para artistas das Primeiras Nações, Inuit e Métis e a reforçar a sua presença nos circuitos de espetáculos do país.
“Temos apoiado esta organização desde 2016 porque reconhecemos o seu valor”, afirmou Lisa Hepfner, deputada federal por Hamilton Mountain, em declarações à Senso Magazine no final do anúncio, realizado nas Six Nations of the Grand River.
Segundo o Governo federal, o financiamento será distribuído ao longo de dois anos, com 96 mil dólares em 2027-28 e outros 96 mil em 2028-29, através do Canada Arts Presentation Fund, e apoiará iniciativas como o Intertribal Gathering e outros programas destinados a expandir a presença das artes indígenas no Canadá.
Lisa Hepfner, que anunciou o investimento em nome do ministro da Identidade e Cultura Canadiana, Marc Miller, destacou o papel das artes na aproximação entre comunidades e no processo de reconciliação.
“A reconciliação passa por ouvir e compreender”, disse a deputada federal.
“As artes ajudam-nos a aprender sobre outras culturas de uma forma que talvez o nosso cérebro não compreenda, mas que o nosso coração compreende.”
Questionada sobre as barreiras que continuam a limitar o acesso de artistas indígenas a públicos, espaços de espetáculo e financiamento, Lisa Hepfner reconheceu que “há sempre mais trabalho a fazer” e defendeu uma abordagem baseada na colaboração com organizações indígenas.
“Não podemos fazê-lo sozinhos. Temos de colaborar com as organizações de base que estão a fazer esse trabalho, ouvi-las e proporcionar-lhes aquilo de que necessitam”, afirmou, acrescentando que são as próprias comunidades que possuem o conhecimento necessário para determinar as suas prioridades.

A Indigenous Performing Arts Alliance é uma organização nacional dirigida pelos seus membros e dedicada à representação e desenvolvimento das artes performativas indígenas.
De acordo com os dados divulgados pelo Governo federal, integra atualmente 237 artistas indígenas, 22 organizações indígenas e 40 organizações e membros aliados de várias regiões do Canadá.
Cynthia Lickers-Sage, diretora executiva da IPAA, explicou que o financiamento permitirá à organização chegar a artistas e comunidades nas províncias e territórios e criar mais oportunidades para que as suas perspetivas sejam ouvidas.
“Este financiamento permite-nos amplificar as vozes em todo o Canadá”, afirmou Cynthia Lickers-Sage.
“É uma oportunidade para que as nossas vozes sejam ouvidas a partir da perspetiva dos primeiros povos e também em diferentes línguas que acolhemos, não apenas nas duas línguas oficiais.”
A responsável identificou como uma das principais necessidades dos membros da organização o acesso a espaços onde possam apresentar o seu trabalho, incluindo contactos com salas e organizações de artes performativas e oportunidades concretas de atuação.
“Precisamos de oportunidades para amplificar essas vozes: apresentações a espaços de artes performativas em todo o Canadá e oportunidades para atuar”, explicou Cynthia Lickers-Sage, referindo também as dificuldades enfrentadas pelo setor desde a pandemia de covid-19 e as mudanças nos hábitos de compra de bilhetes.
A diretora executiva reconheceu ainda que continua a ser difícil para artistas indígenas integrarem a programação de festivais, teatros e outros espaços de artes performativas, embora a IPAA esteja a trabalhar com organizações do setor e diretamente com salas de espetáculos para aumentar a sua visibilidade.
“Os artistas indígenas continuam definitivamente sub-representados em toda esta ecologia das artes performativas”, afirmou Cynthia Lickers-Sage, considerando, contudo, que o setor atravessa uma mudança em que existem progressivamente mais oportunidades para que essas histórias sejam apresentadas ao público.
Entre as iniciativas apoiadas pelo financiamento está o Intertribal Gathering, encontro bienal que, segundo Cynthia Lickers-Sage, coloca artistas em contacto direto com programadores, financiadores e outros profissionais das artes num ambiente concebido para favorecer relações em condições de igualdade.
O apoio federal destina-se também a outros programas e atividades contínuas da IPAA.
Para Cynthia Lickers-Sage, uma reconciliação efetiva no setor passa por criar condições mais equitativas entre as artes performativas indígenas e o restante setor, incluindo colaboração, coprodução, promoção cruzada e maior acesso aos principais palcos.
“É abrir essa porta e trabalhar com colegas não indígenas para encontrar oportunidades de criar redes, colaborar e chegar a esses palcos”, afirmou, defendendo que os artistas indígenas deixem de ser remetidos para espaços secundários e tenham acesso à programação principal.
Cynthia Lickers-Sage disse ter observado mudanças nesse sentido ao longo da última década, com artistas indígenas a conseguirem maior destaque nos principais palcos, mas ressalvou que o processo ainda está longe de estar concluído.
“Há ainda um longo caminho a percorrer, mas estamos a dar passos incrementais”, concluiu.
Sérgio Mourato
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