O Canadá assinala hoje, 30 de setembro, o Dia Nacional da Verdade e Reconciliação, uma jornada dedicada a homenagear os sobreviventes das escolas residenciais indígenas, recordar as crianças que nunca regressaram às suas famílias e refletir sobre as consequências de um sistema que funcionou durante mais de um século.
A data, assinalada pela quinta vez como feriado federal, coincide com o Orange Shirt Day e procura manter presente a história das escolas residenciais e os seus efeitos intergeracionais nas comunidades das First Nations, Inuit e Métis.
O primeiro Dia Nacional da Verdade e Reconciliação foi celebrado em 30 de setembro de 2021, depois de o Parlamento canadiano ter criado o feriado através do Bill C-5.
Mais de 150 mil crianças indígenas foram retiradas das famílias e comunidades e enviadas para escolas residenciais no Canadá.
O sistema, financiado e administrado pelo Governo federal e operado em grande parte por organizações religiosas, procurava assimilar as crianças, afastando-as das línguas, culturas, tradições e identidades indígenas.
Muitas crianças sofreram abusos físicos, emocionais e sexuais, e milhares morreram enquanto estavam ligadas ao sistema.
O National Centre for Truth and Reconciliation (NCTR) continua a investigar os registos existentes e a trabalhar com comunidades e famílias para identificar crianças que morreram ou desapareceram.
O organismo refere que a investigação permanece incompleta, devido, entre outros fatores, à existência de documentação ainda por analisar e de registos perdidos, destruídos ou inadequados.
O dia 30 de setembro está diretamente ligado à Call to Action 80 da Truth and Reconciliation Commission of Canada, que recomendou a criação de um feriado nacional para homenagear sobreviventes, famílias e comunidades e garantir que a história e o legado das escolas residenciais permanecessem uma parte pública do processo de reconciliação.
A comissão apresentou, em 2015, um total de 94 Calls to Action destinadas a enfrentar esse legado e promover mudanças na relação entre povos indígenas e a sociedade canadiana.
A origem da camisola laranja
O 30 de setembro é também o Orange Shirt Day, iniciativa indígena que teve origem na experiência de Phyllis Webstad, da Stswecem’c Xget’tem First Nation. Phyllis Webstad tinha seis anos quando chegou à St. Joseph Mission Indian Residential School, na Colúmbia Britânica, usando uma camisola laranja nova que lhe tinha sido oferecida pela avó. A peça de roupa foi-lhe retirada quando chegou à escola.
A história transformou a camisola laranja num símbolo da experiência das crianças retiradas às famílias e está associada à mensagem “Every Child Matters”.
Em todo o país, escolas, instituições públicas, organizações e cidadãos são incentivados a vestir laranja para homenagear os sobreviventes e recordar aqueles que nunca regressaram a casa.
Em 2026, o Governo do Ontário introduziu também orientações específicas para que as escolas públicas assinalem anualmente o Dia Nacional da Verdade e Reconciliação, incluindo aprendizagem sobre a história e os impactos das escolas residenciais e atividades desenvolvidas de forma culturalmente adequada e informada pelo trauma.
As bandeiras nos edifícios e instalações do Governo do Canadá, incluindo a Peace Tower, em Otava, permanecem esta quarta-feira a meia-haste, do nascer ao pôr do sol.
O mesmo acontece nos edifícios do Governo do Ontário, numa homenagem aos sobreviventes, às famílias, às comunidades e às crianças que não regressaram a casa.
O National Centre for Truth and Reconciliation sublinha que o trabalho relacionado com as crianças desaparecidas e os locais de sepultamento continua.
Entre as Calls to Action estão a manutenção de um registo das crianças que morreram nas escolas residenciais, a identificação dos locais onde foram sepultadas e a colaboração com famílias e comunidades para a sua adequada comemoração.
Mais do que uma data de memória, o Dia Nacional da Verdade e Reconciliação pretende promover aprendizagem sobre a história das relações entre o Canadá e os povos indígenas e incentivar ações concretas ao longo do ano.
O próprio Governo do Ontário descreve a comemoração como apenas uma etapa de um processo mais longo de reconhecimento da verdade e de reconciliação.
Sérgio Mourato
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