Enquanto o Canadá completa 132 aniversários do Dia do Trabalhador, o mundo laboral está a ser desafiado por várias frentes. A escassez de mão-de-obra qualificada, o envelhecimento da força de trabalho, a nova geração a reconsiderar as profissões técnicas, as rápidas mudanças tecnológicas e a crescente disputa comercial com os Estados Unidos têm colocado um ponto de interrogação no futuro do mercado de trabalho canadiano.
Na altura em que o país se propõe a construir cada vez mais casas e infraestruturas, há uma questão que se torna cada vez mais urgente: quem executará o trabalho do futuro?
O país precisa de mais habitação, transportes públicos, hospitais, infraestruturas energéticas, estradas e grandes projectos industriais. Ao mesmo tempo, milhares de trabalhadores experientes estão a aproximar-se da reforma, os empregadores procuram pessoas qualificadas, os aprendizes precisam de percursos para as suas carreiras e um ambiente comercial internacional imprevisível está a exercer pressão adicional sobre as indústrias e os trabalhadores. O desafio que o Canadá enfrenta, portanto, não é simplesmente criar emprego. Cada vez mais, trata-se de garantir que o país tem pessoas suficientes com as competências certas para preencher as vagas necessárias. É uma escassez que se vem a acumular há anos, e que poucos setores ilustram tão bem como o da construção civil.
A construção emprega atualmente cerca de 1,6 milhões de pessoas no Canadá e representa cerca de 7% do PIB (Produto Interno Bruto) do país. No entanto, as últimas previsões da BuildForce Canada sugerem que o setor necessitará de recrutar centenas de milhares de trabalhadores durante a próxima década, à medida que a procura se combina com a reforma de profissionais experientes.
Warren Douglas, presidente da BuildForce Canada, defendeu recentemente que o setor precisa agora de se posicionar de uma forma diferente para os futuros trabalhadores, descrevendo a construção civil como uma “opção de carreira de primeira escolha para jovens e pessoas de grupos sub-representados”. A escassez de mão-de-obra não se limita apenas a encontrar trabalhadores suficientes para preencher as vagas. Quando um carpinteiro, eletricista, canalizador, soldador ou operador de equipamentos pesados experiente se reforma, há também décadas de conhecimento que abandonam o mercado de trabalho com ele. E um novo recruta não consegue substituir esta experiência de um dia para o outro.
Olhando para Ontário em particular, a província enfrenta neste momento uma pressão demográfica particularmente significativa. A BuildForce estima que aproximadamente 92 mil trabalhadores poderão reformar-se do setor da construção civil até 2035. Somando a estas reformas o crescimento populacional, a província poderá vir a precisar de mais de 126 mil novos trabalhadores durante este período, o que cria um grande paradoxo. O Canadá enfrenta uma crise de acessibilidade à habitação e deseja acelerar a construção, mas a sua capacidade de construir depende, em parte, de conseguir encontrar e formar as pessoas necessárias para transformar estas ambições em realidade. E o desafio torna-se ainda maior quando se consideram metas ambiciosas para a construção de habitações. Kevin Lee, CEO da Associação Canadiana de Construtores Residenciais, alertou que lidar com a acessibilidade à habitação exigirá “esforços de recrutamento direcionados e monumentais da indústria, das escolas técnicas e do governo”. Noutras palavras, a política de habitação é também política laboral. Anunciar milhares de casas novas é uma coisa. Ter pessoas formadas o suficiente para as construir é outra.
As profissões técnicas precisam de uma nova geração. Durante décadas, muitas famílias canadianas viram a universidade como o caminho padrão para o sucesso profissional. As profissões técnicas eram frequentemente apresentadas como uma alternativa para os estudantes sem vocação académica, em vez de uma carreira de primeira escolha que exigia experiência, qualificações e anos de formação. Essa é uma perceção que tem vindo a mudar gradualmente.

Segundo os últimos dados, em 2024, o Canadá somou quase 88 mil novos registos em profissões técnicas com o Selo Vermelho (Red Seal), um recorde. No entanto, as projeções federais prevêem mais de 593 mil vagas de emprego em ocupações relacionadas com profissões técnicas com o Red Seal entre 2024 e 2033, em grande parte devido às reformas e ao crescimento do emprego.
Consequentemente, os governos têm dado maior ênfase aos programas de aprendizagem e à formação nas profissões técnicas. No início deste ano, o Secretário de Estado do Trabalho, John Zerucelli, resumiu esta urgência de forma sucinta: “Precisamos que mais aprendizes completem a sua formação”. Zerucelli relacionou esta necessidade diretamente com a habitação, as infraestruturas e os grandes projetos nacionais. O Canadá propôs também a iniciativa Team Canada Strong, um esforço multi bilionário com o objetivo de recrutar, formar e contratar dezenas de milhares de trabalhadores qualificados com certificação Red Seal ao longo de cinco anos. Em suma: o Canadá já não se pode dar ao luxo de tratar as profissões técnicas como uma carreira secundária. E as profissões técnicas de hoje já não são as mesmas que muitas pessoas imaginam de há uma geração. Planos digitais, máquinas sofisticadas, pré-fabricação, automação, novos materiais e sistemas energéticos cada vez mais complexos estão a modernizar a indústria a cada dia que passa.
Mas há ainda outro desafio que paira sobre os trabalhadores canadianos neste Dia do Trabalhador: as contínuas tensões comerciais com os Estados Unidos. O que começou como uma disputa sobre tarifas tornou-se cada vez mais uma questão laboral. As indústrias siderúrgicas, de alumínio, automóvel e outras altamente integradas dependem do comércio entre o Canadá e os EUA, e as tarifas podem traduzir-se rapidamente em custos mais elevados, perturbações nas cadeias de abastecimento, atrasos nos investimentos e incerteza para as pessoas cujos meios de subsistência dependem destas indústrias. Em 2025, os Estados Unidos aumentaram as suas tarifas sobre o aço e o alumínio canadianos para 50% e, posteriormente, alargaram a gama de produtos afetados, enquanto o Canadá respondeu com as suas próprias medidas e programas destinados a proteger os produtores e os trabalhadores nacionais. Para a construção civil, os efeitos podem ir muito além das siderurgias. O aço e o alumínio estão presentes em edifícios, máquinas, infraestruturas e inúmeros componentes manufaturados, o que significa que as alterações nos seus custos e disponibilidade podem alastrar para projetos em todo o país. De uma forma mais ampla, a disputa comercial expôs o quão interligados estão os empregos canadianos com as decisões tomadas fora do país. À medida que o Canadá procura reduzir a sua dependência dos Estados Unidos, fortalecer a indústria nacional e desenvolver novos mercados, os trabalhadores estarão inevitavelmente no centro desta transição. O Dia do Trabalhador de 2026 chega, portanto, num momento atípico: o Canadá precisa de mais pessoas para construir o seu futuro, ao mesmo tempo que enfrenta incertezas quanto às relações económicas internacionais que sustentaram muitos destes empregos durante décadas.
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