A Casa das Beiras de Toronto encerrou no sábado a Semana Cultural Beirã 2026, a primeira realizada desde 2019, com uma semana dedicada à gastronomia, folclore e música portuguesa e com a entronização de sete novos confrades da Confraria Saberes e Sabores do Grão Vasco.
“Foi positivo todo o movimento que tivemos esta semana”, afirmou Bernardino Nascimento, presidente da Casa das Beiras de Toronto, em declarações à Senso Magazine, destacando o regresso de uma iniciativa interrompida após 2019 devido à pandemia e, posteriormente, às obras da nova sede da associação.
A Semana Cultural Beirã decorreu entre 19 e 26 de setembro, na sede da instituição, na Ronald Avenue, em Toronto, com almoços e jantares regionais, noites temáticas, folclore, fado e música portuguesa, além de um concurso de sopas e uma noite dedicada aos jovens.

Segundo Bernardino Nascimento, cerca de 500 pessoas passaram pela Casa das Beiras durante os oito dias de programação, incluindo membros da comunidade que nunca tinham visitado as novas instalações.
“Tivemos uma aderência excelente de participantes, muitos jovens, muitas pessoas a passarem aqui tanto ao almoço como ao jantar. Foi fantástico”, salientou.
A iniciativa marcou o regresso da Semana Cultural Beirã sete anos depois da última edição e cerca de um ano após a inauguração da nova sede da Casa das Beiras, associação criada em 2000 e que representa as regiões da Beira Alta, Beira Baixa e Beira Litoral.
Para o presidente da instituição, um dos principais desafios passa agora por assegurar que as novas gerações assumam progressivamente a continuidade das atividades culturais e associativas.
“O nosso objetivo é envolver os jovens a tomarem conta dessas iniciativas que nós já vimos a organizar há muitos anos”, explicou Bernardino Nascimento, manifestando confiança de que, no futuro, a direção da Casa das Beiras possa integrar uma nova geração de dirigentes.
Folclore de Lordosa atravessou o Atlântico

Um dos destaques da programação foi a presença do Rancho Folclórico Verde Gaio de Lordosa, do concelho de Viseu, que viajou para o Canadá com 38 elementos e participou em diferentes momentos da Semana Cultural.
Sandra Almeida, ensaiadora e membro da estrutura associativa do Verde Gaio de Lordosa, explicou que o grupo procurou apresentar mais do que as danças e cantares tradicionais, recriando também aspetos do quotidiano das populações beirãs entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
“O folclore é a sabedoria do nosso povo”, afirmou Sandra Almeida, sublinhando que o objetivo é estabelecer uma ligação “dos anos passados com as gerações vindouras”.
O grupo conta com cerca de 50 elementos e mantém em Lordosa um espaço museológico etnográfico dedicado à preservação das tradições locais.

A existência do Museu Etnográfico Verde Gaio de Lordosa e o seu trabalho de preservação, nomeadamente de objetos associados ao ciclo do pão, são também referidos pela Junta de Freguesia.
“Para além das danças e cantares muito comuns de vermos e apreciarmos num rancho folclórico, quisemos trazer também a componente cénica do que realmente se vivia, como se falava, o que se fazia nos trabalhos e nas romarias”, explicou Sandra Almeida.
A responsável destacou ainda a receção da comunidade portuguesa de Toronto e disse que a passagem pelo Canadá permitiu ao grupo conhecer de perto a forma como a diáspora mantém as tradições portuguesas.
“Fomos recebidos de braços abertos, literalmente, com uma alegria e uma emoção de terem os portugueses com eles”, acrescentou.
Viseu destaca papel da diáspora

A Câmara Municipal de Viseu esteve representada nas comemorações pelo vereador Miguel Pipa, que destacou o papel das comunidades emigrantes na preservação e promoção da cultura da região.
“Nós, no Município de Viseu, nunca esquecemos aqueles que partiram, porque são verdadeiros embaixadores do nosso território”, afirmou Miguel Pipa à Senso Magazine.
O autarca considerou que instituições como a Casa das Beiras funcionam como uma ponte entre Portugal e as comunidades emigrantes, ao reunirem sucessivas gerações em torno da cultura e das tradições de origem.
Também José Manuel Pereira, presidente da Junta de Freguesia de Lordosa, acompanhou o Rancho Folclórico Verde Gaio durante a deslocação ao Canadá.
A função autárquica de José Manuel Pereira é confirmada pela Junta de Freguesia e por fontes locais de Viseu.
“Pensava que vinha conhecer pessoas e, quando entrei pelas portas da Casa das Beiras, fui muito bem acolhido e conheci muitas pessoas que cá estavam”, contou José Manuel Pereira, acrescentando que se sentiu “em casa”.
Sete novos confrades entronizados em Toronto

O encerramento ficou igualmente marcado pela entronização de sete novos membros da Confraria Saberes e Sabores do Grão Vasco, estrutura criada em 2017 na Casa das Beiras e dedicada à promoção da gastronomia, dos produtos e das tradições da região.
Bernardino Nascimento, responsável pela confraria em Toronto, explicou que a cerimónia foi integrada no último dia da Semana Cultural para coincidir com a presença dos convidados provenientes de Viseu e de Lordosa.
Foram entronizados Dani Coimbra, Vítor Caramujo, Fernando Rodrigues, Emanuel da Cruz, Olga Rodrigues, Lisete Assunção e Cecília Almeida, três mulheres e quatro homens ligados à comunidade de Toronto.
“Aquilo que tentamos fazer é usar produtos alimentares da nossa região, os nossos vinhos, as bebidas espirituosas e o folclore. É uma maneira de podermos destacar aquilo que temos de bom na nossa região”, explicou Bernardino Nascimento.
Vítor Caramujo, um dos novos confrades, disse à Senso Magazine que aceitou o convite para integrar a organização por considerar importante manter a tradição da Casa das Beiras.
Apesar de não ser natural da região, Vítor Caramujo mantém uma ligação pessoal às Beiras, onde possui uma casa, e destacou igualmente o envolvimento da própria família na associação, incluindo a filha, que integra a direção, e o filho, que participou nas obras da nova sede.
“Um pé no passado e outro no futuro”

O programa de encerramento incluiu ainda a atuação de Pedro Joel e da sua banda, com um repertório dedicado à música popular portuguesa.
Natural de Aveiro e emigrante no Canadá há cerca de 20 anos, Pedro Joel defendeu que os músicos portugueses na diáspora desempenham também um papel na transmissão da cultura às novas gerações.
“Manter as raízes é fundamental para podermos ter uma perceção do que se fez e também ter um caminho para seguir para o futuro”, afirmou o músico.
Pedro Joel resumiu essa missão como a necessidade de preservar a herança musical portuguesa sem deixar de acompanhar a sua evolução: “O nosso papel aqui é mostrar um pouco o que se fez e o que estamos a fazer, com um pé no passado e outro pé no futuro.”
Para Bernardino Nascimento, a combinação de gastronomia, folclore, música e confraria ao longo dos oito dias permitiu recuperar uma iniciativa que a direção pretende voltar a realizar nos próximos anos.
“Foi uma semana a pensar mesmo na região das Beiras”, concluiu o presidente da Casa das Beiras, destacando o intercâmbio entre Toronto e Portugal e a participação de novas gerações como elementos centrais para a continuidade da instituição.
Sérgio Mourato
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