O Rancho Províncias e Ilhas de Portugal celebrou este sábado, em Ancaster, 43 anos de atividade, numa gala que reuniu a comunidade portuguesa e convidados do Canadá e dos Açores, numa homenagem a mais de quatro décadas de preservação do folclore e das tradições portuguesas.
A celebração, realizada no Ancaster Fairgrounds, em Jerseyville, destacou também a ligação do grupo às novas gerações, numa altura em que o rancho conta com cerca de 44 elementos, maioritariamente jovens entre os cinco e os 22 anos.
“O rancho foi criado para isso, para a gente preservar o nosso folclore, a nossa identidade portuguesa, as nossas tradições e também para manter as tradições dos nossos pais e dos nossos avós”, afirmou à Senso Magazine o presidente do grupo, Norberto Paiva.
Fundado há 43 anos por portugueses oriundos de diferentes regiões do país, incluindo o continente e os Açores, o grupo adotou precisamente por essa diversidade o nome Rancho Províncias e Ilhas de Portugal.
Norberto Paiva integra a coletividade há 16 anos e explicou que aproximadamente metade dos atuais elementos e dirigentes tem raízes açorianas, embora estejam representadas diferentes regiões portuguesas.
A transmissão da cultura às gerações nascidas no Canadá continua a ser uma das principais missões do grupo.
“É muito bom para nós ensinarmos a cultura aos nossos filhos que são nascidos aqui neste país”, salientou o dirigente, acrescentando que o objetivo é permitir-lhes conhecer as tradições dos pais e dos avós.

Apesar das dificuldades sentidas após a pandemia de covid-19 na captação de participantes, o rancho conseguiu recuperar e tem mantido nos últimos anos entre 40 e 45 elementos.
Norberto Paiva apontou, no entanto, o aumento do custo de vida como um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas organizações comunitárias.
“Os preços das comidas, das bebidas, dos salões, tudo aumentou”, explicou, recordando que uma refeição que há alguns anos poderia custar cerca de 60 dólares num evento comunitário pode atualmente chegar aos 80 dólares.
A elevada concentração de iniciativas portuguesas no sul do Ontário representa igualmente um desafio para as organizações, sobretudo durante os fins de semana.
Segundo Norberto Paiva, podem realizar-se “quatro ou cinco festas” portuguesas num mesmo fim de semana na província, obrigando grupos e associações a disputar público e participantes.
A localização do Rancho Províncias e Ilhas de Portugal na região de Hamilton ajuda, contudo, a diferenciá-lo da realidade encontrada na área de Toronto, onde existe uma maior concentração de grupos folclóricos.
Povoação em destaque

A edição deste ano teve uma ligação especial ao concelho da Povoação, na ilha de São Miguel, representado na gala pelo presidente da Câmara Municipal, Pedro Melo.
A homenagem surge depois de o Rancho Províncias e Ilhas de Portugal ter visitado os Açores há dois anos e sido recebido naquele município.
“Decidimos fazer uma dedicatória à Povoação para retribuir e agradecer pelo convite e pela receção que tivemos lá”, explicou Norberto Paiva.
Pedro Melo destacou o trabalho desenvolvido pelo grupo ao longo de mais de quatro décadas e considerou a sua longevidade um exemplo da capacidade da diáspora para manter viva a cultura portuguesa.
“Hoje estarmos aqui a comemorar os 43 anos de vida deste rancho é muito importante”, afirmou o autarca à Senso Magazine.
Para Pedro Melo, chegar aos 43 anos representa não apenas o trabalho dos atuais elementos, mas de todas as pessoas que passaram pelo grupo e contribuíram para a sua continuidade.
O presidente da Câmara da Povoação conhece pessoalmente a realidade da emigração portuguesa no Canadá. Chegou ao país com cerca de 14 anos e viveu aproximadamente quatro anos e meio em Mississauga, onde estudou e trabalhou.
“Foi aqui que eu aprendi a valorizar a cultura portuguesa, a cultura açoriana. Foi aqui que comecei a ouvir música portuguesa”, recordou.
Pedro Melo disse ainda que foi no Canadá que começou a apreciar de forma diferente o folclore e as filarmónicas portuguesas, levando consigo essa relação reforçada com a cultura quando regressou aos Açores.
O autarca, que mantém dois irmãos e outros familiares no Canadá, aproveitou a passagem pelo Ontário para agradecer o apoio historicamente prestado pela diáspora às suas comunidades de origem.
“Sempre que nós necessitamos, sempre que acontece uma catástrofe na nossa terra, são os primeiros a chegar-se à frente e a ajudar”, afirmou.
Rancho de Winnipeg percorreu mais de dois mil quilómetros
A dimensão nacional da celebração ficou também marcada pela presença do Rancho Folclórico da Casa dos Açores de Winnipeg, que viajou de Manitoba para o Ontário a convite da organização.
“Viemos com o nosso rancho adulto, a convite do grupo Províncias e Ilhas de Portugal, ao seu 43.º aniversário e também ao quinto Festival de Folclore”, explicou à Senso Magazine José Santos, presidente da Casa dos Açores de Winnipeg.
A comitiva trouxe 12 elementos, seis pares, embora o grupo completo tenha cerca de 36 participantes.
Para José Santos, estas deslocações permitem que os mais jovens estabeleçam contactos com outros grupos e conheçam diferentes comunidades portuguesas espalhadas pelo país.
“É bom que eles saiam e conheçam outros grupos, outras pessoas e que possam estar em sintonia com a verdadeira cultura de Portugal espalhada pelo Canadá”, afirmou.
Fundada em 1992, a Casa dos Açores de Winnipeg mantém desde então um rancho dedicado exclusivamente ao folclore açoriano, com repertório representativo das diferentes ilhas do arquipélago.
José Santos identificou a falta de voluntários e, sobretudo, de músicos como algumas das maiores dificuldades enfrentadas atualmente pelo movimento folclórico português no Canadá.
“Não há quem toque”, afirmou, explicando que a escassez de instrumentistas obriga alguns grupos a recorrer a música gravada nas suas atuações.
Apoio da LiUNA Local 183

A gala contou igualmente com a participação de Jack Oliveira, gerente de Negócios da LiUNA Local 183, que destacou o papel dos membros do sindicato e das respetivas famílias no apoio às iniciativas da comunidade.
Jack Oliveira elogiou o trabalho desenvolvido por Norberto Paiva e pela sua equipa e anunciou que o Rancho Províncias e Ilhas de Portugal poderá realizar a celebração do próximo aniversário nas novas instalações da LiUNA Local 183, em Vaughan.
“Eu disse ao Norberto que, para o ano, pode fazer a festa no salão novo da 183 em Vaughan”, afirmou durante a cerimónia.
A proposta foi aceite publicamente pelo presidente do rancho, perante os participantes na gala.
As comemorações não terminam este sábado. O programa prossegue este domingo, 6 de setembro, entre as 14:00 e as 20:00, com o 5.º Festival de Folclore, também no Ancaster Fairgrounds, em 630 Trinity Road South, Jerseyville.
O festival tem entrada gratuita e reúne grupos folclóricos do Ontário, Quebec e Manitoba, incluindo a representação da Casa dos Açores de Winnipeg, numa tarde dedicada à música, dança e tradições portuguesas.
De acordo com o Recenseamento da População de 2021, Hamilton tinha 569.353 habitantes, dos quais 16.070 declararam origem étnica ou cultural portuguesa.
Sérgio Mourato
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