O folclore português voltou este domingo ao Ancaster Fairgrounds, na região de Hamilton, com grupos vindos de diferentes pontos do Canadá e uma forte presença de crianças e jovens, numa demonstração da continuidade das tradições portuguesas entre as novas gerações.
“O folclore aqui no Canadá está de popa alta. Para mim, isto é incrível”, afirmou à Senso Magazine Norberto Paiva, presidente do Rancho Províncias e Ilhas de Portugal, responsável pela organização do quinto Festival de Folclore.
Além do grupo anfitrião, o programa contou com as atuações do Rancho Folclórico Ecos de Portugal, de Windsor-Essex, do Grupo Folclórico de Kingston e do Grupo Folclórico Memórias da Nossa Terra, da Casa dos Açores de Winnipeg, Manitoba.
“Os jovens aderem ao folclore, temos vários grupos aqui no Ontário, também grupos por todo o Canadá e com muita juventude. Isto tem muito futuro, na minha opinião. Muito, muito futuro”, disse Norberto Paiva.

O Rancho Províncias e Ilhas de Portugal conta atualmente com cerca de 54 elementos e tem precisamente nas famílias e nas gerações mais novas uma parte importante da sua continuidade.
Natural das Furnas, na ilha de São Miguel, nos Açores, Norberto Paiva emigrou para o Canadá em 1987 e estabeleceu-se em Hamilton, onde constituiu família e criou uma empresa na área da construção.
A mulher e os filhos também fazem parte do rancho.
“Isto é um grupo de família. O nosso grupo tem a peculiaridade de os pais serem os diretores, os pais trabalharem, os pais ajudarem os filhos no dia-a-dia. Isto é uma família”, explicou.
O dirigente rejeita a ideia de que as tradições portuguesas estejam a desaparecer entre as comunidades emigrantes e acredita que a participação das novas gerações dá garantias de continuidade ao folclore no Canadá.
“Quando vamos de férias a Portugal, o pessoal fala: ‘Vocês lá no Canadá, as coisas estão a acabar’. Não, nós aqui estamos a começar”, afirmou.
Este ano, o grupo acrescentou três novas modas ao repertório, um trabalho que deverá continuar em 2027 para oferecer aos jovens novas danças e manter o interesse pela atividade.
“Eles gostam de dançar e bailar sempre modas diferentes. Nós tentamos fazer o possível para isso, para os atrair mais”, explicou.
Aslam Rana destaca participação das crianças

Entre os presentes esteve o deputado federal por Hamilton Centre, Aslam Rana, que destacou à Senso Magazine o papel das organizações culturais na aproximação das crianças e jovens às tradições das comunidades onde estão inseridos.
“É importante organizações como esta fazerem uma atuação com crianças e jovens”, afirmou o parlamentar liberal, pai de cinco filhos, elogiando o trabalho desenvolvido por dirigentes, músicos, responsáveis e famílias.
Rana chamou particularmente a atenção para o tempo que as crianças passam em atividades culturais e físicas, em contraste com a utilização de dispositivos eletrónicos.
“Quando vi isto nos últimos dois dias, as crianças estavam longe dos ecrãs. É importante mantê-las longe dos ecrãs e [envolvidas] nas atividades físicas”, afirmou.
O deputado destacou ainda a presença de pais, responsáveis e membros da comunidade durante os dois dias de comemorações, considerando que a organização de iniciativas desta dimensão exige meses de preparação e trabalho voluntário.
Rana revelou também uma ligação curiosa à comunidade portuguesa de Hamilton, que remonta aos primeiros tempos depois de chegar ao Canadá.
O parlamentar contou que trabalhou numa estação de serviço localizada numa zona com forte presença portuguesa e começou a aprender algumas palavras do idioma para conseguir comunicar com clientes, sobretudo mais idosos, que tinham dificuldades em falar inglês.
“Quando cheguei ao Canadá, comecei a trabalhar numa estação de serviço. A estação estava numa comunidade portuguesa”, recordou.
Ao perceber as dificuldades linguísticas de alguns clientes, decidiu aprender expressões básicas em português.
“Eu disse: ‘Porque não começar a aprender essa língua?’ Então aprendi”, contou Rana, admitindo que não fala fluentemente português, mas ainda consegue utilizar algumas expressões no dia-a-dia.
Falta de músicos é um dos desafios

Apesar do otimismo em relação ao número de jovens, Norberto Paiva identifica outro problema para o futuro do folclore português no Canadá: a dificuldade em encontrar músicos para acompanhar os grupos ao vivo.
“Há muita falta de instrumentos e de tocadores”, afirmou.
A situação torna-se particularmente complexa para um rancho como o Províncias e Ilhas de Portugal, cujo repertório passa por várias regiões do país e exige diferentes instrumentos e estilos de acompanhamento.
Segundo Norberto Paiva, seriam necessários cerca de 30 instrumentistas para conseguir acompanhar ao vivo todo o repertório apresentado pelo grupo.
“É muito difícil ter tocadores para ter modas do Minho, dos Açores, do Algarve, do Ribatejo”, explicou.
Instrumentos como viola, baixo, concertina, violão e acordeão estão entre aqueles para os quais se tornou mais difícil encontrar músicos disponíveis.
“Não há muitas pessoas que ainda se dediquem à música”, lamentou.
Windsor participa pela primeira vez

Entre os grupos convidados esteve o Rancho Folclórico Ecos de Portugal, de Windsor-Essex, que participou pela primeira vez no festival de Ancaster.
A diretora Jessica Tavares, nascida no Canadá e filha de portugueses da região de Tomar, explicou à Senso Magazine que o grupo completa 30 anos em março e conta com cerca de 50 elementos, entre crianças e adultos.
O repertório representa várias regiões de Portugal continental, assim como São Miguel, Terceira e Madeira.
“A gente quer continuar a tradição de Portugal, trazer aqui para o Canadá e continuar esta tradição, porque, se a gente não continua, já não há tradições”, afirmou.
Também neste grupo são as famílias que ajudam a assegurar a passagem das tradições de uma geração para a seguinte.
“Os filhos, como a minha filha, dançam, o meu pai dança, os filhos dos dançarinos dançam, e assim continua a nossa tradição”, explicou.
O rancho agrega elementos provenientes de Windsor, Leamington e Harrow, localidades onde a presença portuguesa é menor do que na região de Hamilton ou na Grande Toronto.
Jessica Tavares descreveu a primeira participação no festival como uma experiência diferente para o grupo, em particular para os elementos mais novos.
“Ficámos felizes de estar aqui”, disse.
Kingston quer tornar o seu rancho mais conhecido

Também o Grupo Folclórico de Kingston viajou até Ancaster, trazendo uma formação que atravessa várias gerações.
A atual formação está ativa há cerca de três anos e conta com mais de 50 elementos, com idades entre os quatro e os 70 anos, segundo Martine Gonçalves, coordenadora de eventos do grupo.
“Muitos dos dançarinos têm crianças e estão a trazer as crianças juntamente com eles, por isso continuamos a ter jovens por causa dos pais”, afirmou à Senso Magazine.
A localização de Kingston, afastada dos principais núcleos da comunidade portuguesa no sul do Ontário, apresenta desafios diferentes dos enfrentados pelos grupos da Grande Toronto ou de Hamilton.
“Por a gente estar em Kingston e não termos a mesma coisa como aqui em Toronto, em Hamilton, é mais difícil as pessoas saberem quem nós somos”, explicou.
Para Martine Gonçalves, participar em festivais noutras cidades é uma oportunidade para criar relações com outros ranchos e aumentar a visibilidade do trabalho desenvolvido em Kingston.
“É para ser mais anunciado, para outros ranchos saberem que a gente existe”, disse.
O grupo trabalha atualmente sobretudo com repertório do Minho e do litoral português.
Winnipeg traz folclore açoriano até Ancaster

A participação que percorreu a maior distância chegou de Manitoba.
O Grupo Folclórico Memórias da Nossa Terra, integrado na Casa dos Açores de Winnipeg, apresentou-se no festival com 12 elementos, correspondentes a seis pares.
O grupo foi fundado em 1992, juntamente com a então denominada Centro Cultural Açoriano, hoje Casa dos Açores de Winnipeg, e dedica o seu repertório exclusivamente às tradições das nove ilhas dos Açores.
José Santos, presidente da Casa dos Açores de Winnipeg, agradeceu durante o festival a receção em Ancaster e o convite feito pelo Rancho Províncias e Ilhas de Portugal.
“Este grupo é, sem dúvida nenhuma, um marco de grande importância na Casa dos Açores de Winnipeg”, afirmou.
Ao longo da sua história, a formação já passou por vários palcos canadianos e também atuou nos Açores, nomeadamente nas ilhas de São Miguel e Terceira.
A distância entre Winnipeg e o sul do Ontário obrigou a uma viagem de avião e limitou o número de participantes.
“Viemos de avião, as despesas são inúmeras”, explicou José Santos, acrescentando que outros elementos tinham compromissos pessoais e profissionais que impediram a deslocação.
Para o dirigente, apesar das dificuldades, levar o rancho a outras províncias permite divulgar a cultura açoriana para além de Manitoba e criar ligações com outras comunidades portuguesas no Canadá.
Dois dias de celebrações em Ancaster

O Festival de Folclore encerrou um fim de semana dedicado ao 43.º aniversário do Rancho Províncias e Ilhas de Portugal.
As portas abriram ao meio-dia de domingo para um almoço de convívio entre os participantes, seguindo-se o programa de animação e as atuações dos quatro grupos.
No sábado, cerca de 720 pessoas participaram na gala do 43.º aniversário, segundo números avançados pela organização, numa noite que contou com convidados do Canadá, Portugal e Bermudas.
Entre os presentes esteve Pedro Melo, presidente da Câmara Municipal da Povoação, nos Açores, que viveu cerca de quatro anos no Canadá durante a juventude e destacou durante a visita a importância da diáspora na preservação da cultura portuguesa e açoriana.
O próximo aniversário deverá trazer alterações ao formato das comemorações.
Depois de dois dias consecutivos de atividades, Norberto Paiva pretende separar a gala e o Festival de Folclore em dois fins de semana.
“Dois dias de trabalho seguidos é muito trabalho”, justificou.
A gala de 2027 deverá também mudar de local, depois de Jack Oliveira, gerente de Negócios da LiUNA Local 183, ter disponibilizado durante as comemorações de sábado as novas instalações do sindicato em Vaughan para acolher o evento.
O Festival de Folclore, porém, deverá continuar na região de Hamilton.
“Temos aqui um excelente grupo com muita juventude, mesmo muita juventude”, afirmou Norberto Paiva. “Nós continuamos com isso e temos muito futuro.”
O festival contou ainda com as atuações dos artistas luso-canadianos Tony Câmara e Grenville Pinto, além da cantora Cheila Teixeira, que alcançou notoriedade nacional em Portugal após participar no programa The Voice Portugal, da RTP, em 2020.
Sérgio Mourato
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