Os 20 anos das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres de Brampton foram celebrados na sexta-feira à noite, em Vaughan, num jantar de gala que reuniu representantes políticos, diplomáticos, religiosos e comunitários dos dois lados do Atlântico.
“É histórico porque mantemos a nossa história e a nossa tradição de uma forma muito viva, festejando 20 anos da realização das grandes Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Brampton”, afirmou o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro.
O jantar, realizado nas instalações da LiUNA Local 183, marcou o arranque de um fim de semana de celebrações que junta o 20.º aniversário das festas religiosas à inauguração, esta manhã, de uma réplica das Portas da Cidade de Ponta Delgada no Azores Park, em Brampton.
Bolieiro considerou que as duas décadas de celebrações representam a capacidade da diáspora de preservar as suas raízes apesar da distância geográfica.
“É um momento especial, é uma ligação eterna que fica entre os Açores e, neste caso, o Canadá”, disse o governante.
Durante a intervenção perante os participantes no jantar, Bolieiro voltou ao significado dos 20 anos das festas, considerando que a sua continuidade constitui uma demonstração de resiliência.
“Não foi um ano que se fez para experimentar e se desistir por causa das dificuldades. Foi um ano para nos afirmarmos na nossa fé, mas são 20 anos de afirmação de resiliência e de identidade”, afirmou.
“Que honra é sentir esta identidade portuguesa e açoriana no Canadá que tão bem nos recebe”, acrescentou.
Açores “de braços abertos” à diáspora

Numa comunidade onde várias gerações mantêm ligações ao arquipélago, Bolieiro foi também questionado sobre o que o Governo Regional está a fazer para incentivar emigrantes e descendentes a regressarem e investirem nos Açores, tendo em conta as necessidades de população e mão de obra.
“Nós temos duas áreas de possibilidade de intervenção”, começou por responder, distinguindo a atração de imigrantes do eventual regresso de membros da diáspora.
Segundo Bolieiro, embora a legislação sobre imigração seja uma competência do Estado português, os Açores procuram acolher quem entra no país e escolhe o arquipélago para viver.
“Temos tido, nestes últimos anos, um aumento significativo de imigrantes residentes e que dão do seu saber e da sua vontade de trabalhar e de investir à economia dos Açores uma vantagem”, afirmou.
Quanto aos açorianos e descendentes que vivem no estrangeiro, o presidente do Governo Regional deixou uma mensagem de abertura.
“No que diz respeito aos regressos, aos regressados, às nossas diásporas que queiram voltar aos Açores para lá viver, estamos de coração aberto e temos dado estas condições”, afirmou.
Bolieiro referiu particularmente os emigrantes reformados que optam por regressar, assim como aqueles que adquirem habitação ou procuram oportunidades económicas no arquipélago.
“Fazemos muito e estamos de braços abertos para receber os regressos”, declarou.
No investimento, apontou o turismo, imobiliário, economia azul, economia digital, ciência, investigação e novas tecnologias entre as áreas disponíveis, além do desenvolvimento de um cluster do mar e de um cluster espacial.
“Os Açores são um laboratório do futuro também para estas gerações”, afirmou.
“Um marco histórico da nossa presença”

Guido Pacheco, presidente da comissão das Portas da Cidade e ligado à organização das Festas do Senhor Santo Cristo, centrou a sua intervenção no percurso realizado pela comunidade para concretizar o monumento que será inaugurado esta manhã.
“Chegamos hoje ao fim de uma longa e intensa jornada. Provavelmente o início de um novo desconhecido desafio”, afirmou.
“Hoje é dia de celebrarmos o Monumento Portas da Cidade. É um marco histórico da nossa presença neste espaço geográfico”, acrescentou.
Pacheco defendeu que, apesar da ligação evidente a Ponta Delgada e a São Miguel, o monumento deve ser entendido como representativo de uma comunidade mais ampla.
“As Portas da Cidade não são um monumento micaelense, é sim um monumento que representa todos os portugueses de norte a sul, dentro e fora do país”, declarou.
Segundo o responsável, a instalação do monumento representa igualmente uma contribuição portuguesa para o mosaico multicultural de Brampton.
Pacheco destacou o trabalho da comissão, formada pelo vice-presidente Frank Garcia, o secretário João Pimentel, o tesoureiro José António Cordeiro e 11 diretores, além dos patrocinadores, voluntários e entidades que apoiaram a iniciativa.
Entre os apoios mencionou a LiUNA Local 183, os municípios de Ponta Delgada e Ribeira Grande, o Governo Regional dos Açores, a cidade de Brampton e a Região de Peel.
“Hoje é um dia de grande orgulho para todos nós portugueses residentes no Canadá”, afirmou.
Brown: monumento ficará no legado de Brampton

O presidente da Câmara de Brampton, Patrick Brown, considerou as Portas da Cidade “um presente para a comunidade” e “um presente para a cidade de Brampton”.
O autarca destacou o papel de Guido Pacheco na concretização do projeto e de Martin Medeiros, vereador regional e primeiro luso-canadiano eleito para o município de Brampton, na iniciativa que conduziu à criação do Azores Park e ao monumento.
“Estas portas e a procissão são símbolos da nossa profunda amizade com Portugal e os Açores”, afirmou Brown.
O presidente da Câmara disse que Brampton mantém uma ligação profunda ao arquipélago através da comunidade residente na cidade e considerou que o monumento passará a integrar permanentemente a sua identidade.
“Isto será uma parte permanente do legado da nossa cidade nas próximas décadas”, declarou.
Brown agradeceu ainda à LiUNA Local 183 e ao seu business manager, Jack Oliveira, pelo apoio financeiro ao projeto.
“Portugal nunca nos deixou”

Na sua intervenção, Jack Oliveira, gerente de negócios da LiUNA Local 183, colocou o foco nas gerações de açorianos que deixaram as ilhas e construíram uma nova vida no Canadá.
“Por gerações, famílias açorianas deixaram as suas ilhas e vieram para o Canadá em busca de uma vida melhor”, afirmou.
Oliveira recordou que os primeiros emigrantes chegaram com esperança, trabalharam, constituíram famílias, criaram empresas e apoiaram igrejas e organizações comunitárias.
Apesar da distância, acrescentou, “nunca se esqueceram de onde vieram”.
“As tradições, a língua, a fé, a música, a comida e esse forte sentido de família vieram com eles”, referiu.
Para o dirigente sindical, as Portas da Cidade representam precisamente a ligação entre o país de origem e aquele onde sucessivas gerações construíram as suas vidas.
“Quando olhamos para estas portas, podemos ver a ligação entre dois mundos: o Portugal que os nossos pais e avós deixaram para trás e o Canadá que ajudaram a construir”, disse.
O monumento representa também, segundo Oliveira, uma mensagem dirigida aos filhos e netos da comunidade para que conheçam as suas raízes e os sacrifícios das gerações anteriores.
“Nós podemos ter deixado Portugal, mas Portugal nunca nos deixou”, afirmou.
Oliveira revelou ainda que as primeiras conversas com Guido Pacheco sobre o projeto remontam a cerca de sete anos.
Embaixador destaca “história de sucesso” açoriana

O embaixador de Portugal no Canadá, Bernardo Lucena, afirmou que o jantar permitiu celebrar Portugal, os Açores e a comunidade portuguesa de origem açoriana, além de homenagear o seu contributo para os dois países.
O diplomata destacou a concretização das Portas da Cidade como uma oportunidade para deixar “uma forte marca portuguesa e açoriana na cidade de Brampton”.
Lucena agradeceu o apoio de Patrick Brown e destacou a perseverança de Guido Pacheco e da comissão ao longo dos anos necessários para concretizar o projeto.
O embaixador recordou igualmente que os açorianos integraram de forma significativa as primeiras vagas da imigração portuguesa para o Canadá a partir da década de 1950.
“É uma comunidade bem integrada, trabalhadora, com sucesso profissional a vários níveis, sucesso esse que continua a ser visível nas terceiras e quartas gerações”, afirmou.
Para Lucena, trata-se de uma comunidade que representa Portugal e os Açores e que continua a preservar “com muito orgulho valores, tradições culturais e tradições religiosas”.
O embaixador classificou a comunidade açoriana no Canadá como uma “história de sucesso”, estabelecendo também uma ligação com os 50 anos da autonomia política dos Açores.
De Little Portugal para Brampton e Mississauga

A cônsul-geral de Portugal em Toronto, Ana Luísa Riquito, centrou parte da intervenção na transformação geográfica e geracional da comunidade portuguesa na Grande Toronto.
“Durante décadas, a geografia da emigração portuguesa para o Canadá, para a GTA, estava centrada no centro de Toronto, em Little Portugal, nas ruas e instituições onde uma comunidade recém-chegada criou uma casa para si”, afirmou.
Com o passar das gerações, explicou, essa geografia alterou-se.
“As comunidades evoluem, prosperam. Os seus filhos, os seus netos, os seus bisnetos seguiram, no caso da comunidade portuguesa na Grande Toronto, novos caminhos”, disse.
A cônsul-geral apontou Mississauga e Brampton entre os locais para onde se expandiu a presença luso-canadiana, acompanhando uma comunidade progressivamente mais diversificada do ponto de vista urbano, educacional e profissional.
Segundo Riquito, as segundas, terceiras e quartas gerações demonstram também que a plena integração canadiana é compatível com a preservação da herança portuguesa.
“Ser totalmente canadiano não requer ser menos português”, afirmou.
Para a diplomata, essa evolução significa que a memória e os símbolos da presença portuguesa também devem acompanhar as comunidades para os locais onde atualmente vivem.
“Devemos preservar a história de Little Portugal, sim, mas devemos também inscrever a presença portuguesa na paisagem urbana dos lugares onde a nossa comunidade mora hoje”, defendeu.
“E que melhor maneira de fazer isso do que trazendo um pouco da linda Ponta Delgada para Brampton”, acrescentou.
Fim de semana junta comunidade dos dois lados do Atlântico

O jantar de gala reuniu representantes políticos, diplomáticos, religiosos, sindicais e comunitários, entre eles o bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, o diretor regional das Comunidades, José Andrade, e os presidentes das câmaras municipais de Ponta Delgada e Ribeira Grande, Pedro Nascimento Cabral e Jaime Vieira.
Estiveram igualmente presentes a deputada federal por Brampton South, Sonia Sidhu, Martin Medeiros, o conselheiro da Diáspora Açoriana pelo Ontário Matthew Correia, o cônsul honorário de Portugal em Winnipeg e conselheiro da Diáspora Açoriana por Manitoba, Paulo Jorge Cabral, e representantes de organizações da comunidade.
As comemorações prosseguem esta manhã com a inauguração oficial das Portas da Cidade no Azores Park, em Brampton.
Já a componente religiosa do 20.º aniversário do Senhor Santo Cristo prossegue esta tarde, às 16:00, com a Procissão da Mudança da Imagem, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
No domingo, está prevista, às 12:00, uma missa presidida pelo bispo de Angra, seguindo-se, às 14:00, a Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
Sérgio Mourato
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