Milhares de pessoas participaram este fim de semana na Festa de Nossa Senhora do Monte, no Madeira Park, em Georgina, Ontário, numa celebração que juntou fé, música, folclore e gastronomia e mantém há mais de seis décadas uma das principais tradições da comunidade madeirense no Canadá.
“A importância é manter a nossa tradição, é reviver a fé, a nossa devoção, a nossa identidade, porque a Festa de Nossa Senhora do Monte é, sem dúvida, um elemento de identidade dos madeirenses”, disse à Senso Magazine José Rodrigues, presidente da Mesa da Assembleia Geral da Casa da Madeira e conselheiro da Diáspora Madeirense no Canadá.
Natural de Santa Cruz e residente no Canadá há 43 anos, Rodrigues explicou que a celebração ultrapassa a componente religiosa, funcionando como ponto de encontro de famílias e amigos e como espaço de memória daqueles que ajudaram a construir a comunidade madeirense no país.
“É dar continuidade àquilo que ao longo dos anos nos tem orgulhado e manter vivo sempre aquilo que tem sido o orgulho dos nossos antecessores”, afirmou, destacando a importância de transmitir a tradição às novas gerações.
Rodrigues tinha sete ou oito anos quando participou nas primeiras celebrações de Nossa Senhora do Monte de que guarda memória, ainda na Madeira e acompanhado pelos avós, passando a frequentar a festa no Madeira Park depois de emigrar para o Canadá.
A continuidade, defendeu, depende do “espírito coletivo”, do compromisso e do “sentido de missão” das pessoas ligadas às associações, para que as tradições, usos e costumes possam ser transmitidos aos descendentes dos emigrantes.
“Nós trazemos a saudade da terra, mas levamos também a nossa fé”, acrescentou.

A história do Madeira Park está ligada aos primeiros anos da imigração portuguesa organizada para o Canadá.
Em junho de 1963, um grupo de imigrantes oriundos da Madeira reuniu-se na propriedade do pioneiro Carlos Pereira, em Orangeville, Ontário, para celebrar o 10.º aniversário da chegada dos primeiros trabalhadores migrantes portugueses a Halifax, em 1953.
Mais tarde nesse ano, o mesmo grupo, liderado por José Patrício, adquiriu terrenos em Georgina para a realização de futuros encontros da comunidade. A propriedade viria a tornar-se o Madeira Park, atualmente um dos principais espaços de encontro da comunidade madeirense no Ontário.
O mesmo grupo fundou o Canadian Madeira Club, formalmente constituído em 1965.
Antes de possuir instalações próprias, os membros reuniam-se na barbearia de Ângelo Bacalhau, no Kensington Market, em Toronto, passando posteriormente para o salão paroquial da Igreja Católica de St. Mary.
Em 1978, a organização adquiriu um edifício no número 961 da College Street, que viria a tornar-se a Casa da Madeira Community Centre.
Em 1995, mudou-se para um edifício maior, de três pisos, no número 1621 da Dupont Street, em Toronto, incluindo um salão com capacidade para 260 pessoas.
Ao longo da sua história, a organização promoveu festas religiosas e populares, jantares comunitários, bailes e piqueniques nos espaços de Toronto e Georgina, sendo a Festa de Nossa Senhora do Monte um dos principais eventos anuais realizados no Madeira Park.

Luís Ferreira da Corte, presidente da Casa da Madeira, chegou ao Canadá em dezembro de 1985 e participou pela primeira vez na Festa de Nossa Senhora do Monte no Madeira Park no ano seguinte.
“Relembrou-me logo a Ilha da Madeira. Matou-me logo de saudades e parecia que eu estava na Ilha da Madeira”, recordou.
O dirigente explicou que a importância atribuída a Nossa Senhora do Monte pelos fundadores está diretamente relacionada com a origem madeirense dos pioneiros.
“Os pioneiros foram todos madeirenses”, afirmou, acrescentando que a celebração veio “das raízes dos madeirenses”, por Nossa Senhora do Monte ser a padroeira da Madeira.
O arraial deste ano, realizado nos dias 15 e 16 de agosto, teve como festeiros José Vieira e Patrick Vieira e combinou as celebrações religiosas com um programa de música, folclore, gastronomia e convívio.
No sábado, o Madeira Park abriu às 08:00 e a componente religiosa começou às 17:00 com a tradicional romagem de ofertas.
Às 18:30 realizou-se a novena, presidida pelo padre Francisco Elói Martinho Prior Claro, vindo da Diocese de Coimbra, em Portugal, acompanhada pela imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Às 19:00 realizou-se a procissão das velas, acompanhada pela Banda Filarmónica Lira do Bom Jesus, seguindo-se as atuações do Rancho da Casa da Madeira, Henrik Cipriano, Décio Gonçalves, Karma Band e Roni de Melo.
No domingo, o recinto voltou a abrir às 08:00, com a missa celebrada às 13:00 pelo padre Francisco Claro.
A procissão, às 14:30, reuniu as imagens de Nossa Senhora do Monte, Nossa Senhora de Fátima e o Santíssimo Sacramento, acompanhadas pela Banda Filarmónica Lira do Bom Jesus.

O programa prosseguiu às 15:30 com a Karma Band e às 16:30 com Roni Melo.
Durante os dois dias, o recinto contou ainda com serviço de bar, gastronomia tradicional madeirense, incluindo carne tenra para espetada, e barracas de malassadas e bolo do caco, reforçando a vertente popular do arraial.
Suzy Vieira, presidente do Conselho Fiscal da Casa da Madeira, estimou que cerca de cinco mil pessoas tenham passado pelo Madeira Park no sábado.
“O sábado é sempre uma noite mais divertida. Hoje, talvez, não tantos, mas uma boa quantidade de povo. Vêm mais para a devoção à Nossa Senhora, para assistir à missa”, explicou no domingo.
“A Nossa Senhora do Monte é a nossa Mãe Santa que cuida de nós, da Madeira, e trouxemos a nossa fé para cá, para o Canadá”, afirmou.
Para Suzy Vieira, preservar a festa no Canadá representa também transmitir a cultura aos descendentes dos emigrantes madeirenses.
“É o ensino que nós deixamos aos nossos filhos por poder manter sempre a nossa cultura cá”, explicou.
A responsável salientou a presença de várias gerações no Madeira Park, recordando que atualmente encontra na festa filhos e netos de pessoas que eram amigas dos seus pais.
“Só com os nossos olhos vemos que as nossas tradições continuam”, disse.
Para a dirigente, a componente religiosa e o arraial fazem parte da mesma expressão cultural.
“A nossa gastronomia portuguesa da Madeira […] a missa, os músicos. Para mim, está tudo conectado”, afirmou, manifestando o desejo de que os filhos e restantes descendentes da comunidade assegurem a continuidade da tradição.
O padre Francisco Prior Claro, da Diocese de Coimbra, que veio de Portugal para presidir às celebrações religiosas da Festa de Nossa Senhora do Monte no Canadá, considerou que a devoção está profundamente ligada à própria história do arquipélago da Madeira.
“A história da Madeira confunde-se muito com a própria história do Santuário da Senhora do Monte”, afirmou, acrescentando que para o madeirense o local representa “um recanto, o seu abrigo, o seu refúgio”, independentemente de estar na ilha ou na diáspora.

Segundo o sacerdote, a distância da terra de origem pode reforçar a importância atribuída às tradições e à fé pelos emigrantes.
“Estas pessoas que vieram para aqui trouxeram muito mais do que aquilo que havia na mala”, afirmou.
Além da cultura, língua, hábitos e formas de ver o mundo, acrescentou, os emigrantes transportaram também “a sua fé”, assente na devoção a Nossa Senhora.
O sacerdote considerou ainda que a vertente religiosa, a gastronomia e o arraial não devem ser vistos separadamente.
“A alma madeirense, a alma portuguesa”, resumiu, defendendo que a celebração demonstra como os momentos de fé podem coexistir com o convívio familiar e comunitário.
No Madeira Park, rodeado pelas árvores do recinto, Francisco Prior Claro recorreu à paisagem para deixar uma mensagem à diáspora.
“Árvores grandes com ramos largos têm de ter raízes fundas”, afirmou.
“Com raízes fundas na nossa fé […] podemos dar uma árvore muito mais frondosa, com ramos muito mais largos”, acrescentou, apontando “ramos de tolerância, de respeito, de amor pelo próximo”, bem comum, paz e convívio social.
Entre os participantes na organização esteve José Alcindo Vieira, natural de São Martinho, no Funchal, residente no Canadá desde 1967, que assumiu juntamente com o filho funções de festeiro na celebração.
“Eu e o meu filho fomos os festeiros desta festa. Portanto, contribuímos da maneira que a gente pode para que a celebração seja condigna e eu acho que foi”, afirmou.
Ligado mais diretamente à Casa da Madeira há cerca de uma década, José Alcindo Vieira disse que a participação na instituição é também uma forma de ajudar a comunidade e destacou que a festa ultrapassa as fronteiras da própria diáspora madeirense.
“Não são só os madeirenses”, afirmou, destacando a presença de portugueses de diferentes origens e a satisfação de ver a comunidade reunida.

José Alcindo Vieira destacou ainda a presença dos mais novos, considerando que as novas gerações se estão a aproximar da comunidade e das suas tradições.
“Fico muito grato por ver estes jovens aqui, todos, porque é bom para eles saberem o que é pertencer a uma comunidade”, declarou.
A preservação da cultura madeirense no Canadá estende-se também ao folclore.
O rancho da Casa da Madeira foi fundado em 1983 por Gilberto Araújo, Agostinho da Silva e José de Freitas, tendo os primeiros trajes da Camacha sido oferecidos pelo Governo português.
Ao longo dos anos, o grupo atuou em várias cidades do Ontário, em Montreal e nos Estados Unidos, incluindo New Bedford e Nova Jérsia, tendo também participado na cerimónia de abertura do então SkyDome, em Toronto.
Em 2011 foi criado um segundo grupo, Floristas da Madeira, dedicado aos membros mais velhos da comunidade.
Apesar de ter como missão preservar e divulgar a cultura e as tradições madeirenses, a organização está aberta a membros provenientes de outras regiões de Portugal e as instalações da Casa da Madeira têm também acolhido iniciativas de outras organizações luso-canadianas.
Mais de seis décadas depois dos primeiros encontros dos pioneiros madeirenses no Ontário, a Festa de Nossa Senhora do Monte continua a ligar a Madeira à diáspora, reunindo no mesmo espaço a devoção trazida pelos emigrantes, o convívio comunitário e os descendentes que procuram assegurar a continuidade da tradição no Canadá.
Sérgio Mourato
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