Os robôs humanoides poderão estar a aproximar-se de um momento de transformação semelhante ao que a inteligência artificial generativa viveu com o aparecimento do ChatGPT. Segundo previsões da indústria, esse salto poderá acontecer dentro de dois a dez anos, quando estas máquinas forem capazes de executar autonomamente grande parte das tarefas que lhes são dadas através de comandos de voz ou texto.
A previsão foi avançada por Wang Xingxing, fundador e presidente executivo da fabricante chinesa Unitree, uma das empresas que mais tem apostado no desenvolvimento de robôs humanoides. Para o responsável, o verdadeiro ponto de viragem acontecerá quando um robô conseguir interpretar uma instrução e executá-la num ambiente que não conhece previamente.
A ideia representa um desafio muito maior do que simplesmente criar máquinas capazes de caminhar, correr ou realizar movimentos impressionantes. O objetivo passa por desenvolver robôs capazes de compreender o espaço à sua volta, tomar decisões, manipular objetos e adaptar-se a situações inesperadas.
Wang estima que um eventual “momento ChatGPT” poderá ocorrer quando um robô conseguir executar cerca de 80% dos comandos recebidos num ambiente aproximadamente 80% desconhecido. Atualmente, a tecnologia ainda está longe desse nível de autonomia, sobretudo devido às limitações na capacidade de generalização dos sistemas de inteligência artificial.
O desafio está no cérebro, não apenas no corpo
Os robôs humanoides já conseguem realizar movimentos cada vez mais sofisticados. No entanto, executar uma tarefa previamente treinada num ambiente controlado é muito diferente de conseguir adaptar-se a uma situação completamente nova.
Uma pequena alteração na posição de um objeto, na iluminação ou nas características de uma superfície pode obrigar o robô a reajustar os seus movimentos. É precisamente esta capacidade de generalização que continua a ser um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento de robôs verdadeiramente autónomos.
Os investigadores estão, por isso, a trabalhar em modelos de inteligência artificial capazes de combinar visão, linguagem e ação. Estes sistemas terão de compreender o que uma pessoa pretende, analisar o ambiente e decidir quais os movimentos necessários para concretizar a tarefa.
Da fábrica para as casas
As primeiras aplicações comerciais dos robôs humanoides deverão surgir sobretudo em ambientes industriais e logísticos, onde as tarefas são mais previsíveis e podem ser controladas.
A longo prazo, contudo, a ambição é muito maior. Os fabricantes imaginam máquinas capazes de ajudar em tarefas domésticas, como limpar, transportar objetos, preparar refeições ou prestar assistência em determinadas atividades do dia a dia.
O fundador da Unitree acredita que, dentro de uma década, poderá existir um pequeno robô em muitas casas. A tecnologia poderá também ser utilizada em trabalhos perigosos ou repetitivos, incluindo operações em ambientes industriais, zonas de difícil acesso ou locais onde exista risco para trabalhadores humanos.
China lidera corrida tecnológica
A China está atualmente na linha da frente do desenvolvimento e produção de robôs humanoides, com dezenas de empresas a trabalhar nesta área e forte apoio governamental à indústria.
A Unitree tornou-se uma das principais fabricantes do setor, desenvolvendo modelos destinados tanto à investigação como a aplicações comerciais. A empresa tem apostado em equipamentos relativamente acessíveis para acelerar a adoção e permitir que universidades, empresas e programadores desenvolvam novas aplicações.
A competição internacional está, contudo, a aumentar. Empresas norte-americanas como a Tesla e a Figure também estão a desenvolver robôs humanoides destinados a aplicações industriais, enquanto outras empresas tecnológicas procuram desenvolver sistemas de inteligência artificial capazes de controlar estas máquinas.
Ainda há muitos obstáculos
Apesar dos avanços, os robôs humanoides continuam longe de substituir trabalhadores humanos em larga escala. As limitações incluem autonomia energética, capacidade de manipulação, segurança, velocidade de execução e, sobretudo, a capacidade de compreender situações novas.
Outro desafio importante é a quantidade de dados necessária para treinar os sistemas. Enquanto os modelos de linguagem podem aprender com enormes quantidades de texto e imagens disponíveis na Internet, os robôs precisam de dados físicos: como agarrar um objeto, aplicar força, manter o equilíbrio ou reagir quando algo não acontece como previsto.
A criação desses dados exige testes no mundo real e milhares de horas de treino, tornando o desenvolvimento muito mais complexo.
Uma nova etapa para a inteligência artificial
Se os avanços previstos se concretizarem, os robôs humanoides poderão representar uma nova etapa na evolução da inteligência artificial: a passagem de sistemas que trabalham sobretudo no mundo digital para máquinas capazes de agir fisicamente no mundo real.
O potencial económico é enorme, mas também surgem questões relacionadas com segurança, privacidade, emprego e utilização indevida da tecnologia.
Por enquanto, o “momento ChatGPT” dos robôs humanoides continua a ser uma previsão. Mas a velocidade a que a tecnologia está a evoluir sugere que a chegada de máquinas capazes de compreender instruções e atuar autonomamente em ambientes humanos poderá estar mais próxima do que parecia há poucos anos.
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